Renegade, Kicks e HR-V lideram os SUVs mais levados na Grande São Paulo, e quase nove em cada dez casos acontecem sem o dono por perto
Todo mundo que comprou um SUV compacto nos últimos anos ouviu a mesma justificativa do vendedor: é o carro que todo mundo quer. O problema é que "todo mundo" inclui quem não pretende pagar por ele. Os números de 2026 da região metropolitana de São Paulo mostram que a popularidade de um modelo nas concessionárias costuma vir acompanhada de popularidade nas estatísticas policiais, e que o perfil do crime mudou: hoje o ladrão de SUV prefere o carro parado e sozinho.
O levantamento foi feito pela Ituran Brasil, empresa de rastreamento, com base nos registros da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), e cobre o período de janeiro a julho, comparando 2025 com 2026. Os dados foram divulgados nesta semana pela revista Quatro Rodas.
O ranking de 2026
O Jeep Renegade segue no topo, como em 2025. As ocorrências com o modelo passaram de 587 para 631, alta de 7,5%. A grande novidade está logo abaixo: o Nissan Kicks subiu do quarto para o segundo lugar, com os casos saltando de 383 para 597, aumento de 55,8%. O Honda HR-V manteve a terceira posição, mas também piorou bastante, de 388 para 566 ocorrências, alta de 45,8%.
Os dez SUVs mais roubados e furtados na Grande São Paulo, de janeiro a julho de 2026:
1º Jeep Renegade – 631
2º Nissan Kicks – 597
3º Honda HR-V – 566
4º Jeep Compass – 485
5º Hyundai Tucson – 225
6º Fiat Fastback – 207
7º Volkswagen T-Cross – 189
8º Ford EcoSport – 182
9º Fiat Pulse – 139
10º Hyundai Creta – 132
O Jeep Compass foi o único dos quatro primeiros a melhorar: tinha 566 casos em 2025, quando era o segundo colocado, e caiu para 485. Fiat Pulse e Fiat Fastback entraram na lista pela primeira vez. Saíram Volkswagen Nivus e Renault Duster. O Ford EcoSport, que não é vendido novo desde 2021, continua lá, agora em oitavo, com 182 registros, o que diz bastante sobre o mercado de peças de reposição que alimenta parte desses crimes.
O furto engoliu o roubo
O dado mais revelador do estudo não é o nome dos modelos. É a forma como eles somem. O furto, quando o veículo é levado sem a presença do motorista, passou de 78% para 88,6% das ocorrências. O roubo, com abordagem, caiu de 22% para 11,3%.
Para o dono, isso tem dois lados. O lado bom é que o risco de ser rendido na porta de casa, proporcionalmente, diminuiu. O lado ruim é que o carro está sendo levado justamente quando ninguém está olhando: estacionado na rua, na porta do trabalho, perto do bar. E furto, ao contrário do roubo, depende muito de quão fácil é abrir, ligar e sair com o veículo. É aí que entra a tecnologia que o próprio carro oferece, e a que você pode acrescentar.
A pesquisa também mostra a idade preferida: carros de cinco a dez anos de uso somaram 2.011 registros, e os de dois a cinco anos, 1.463. Não é o zero-quilômetro da vitrine que mais desaparece. É o seminovo com sistemas de segurança de geração anterior, valor de revenda ainda alto e peças muito procuradas nas oficinas. Um Renegade ou um HR-V de 2018 é exatamente esse perfil.
Onde e quando
No total, foram 5.103 SUVs roubados ou furtados na região metropolitana em 2026, contra 4.749 no mesmo período de 2025, alta de 7,45%. A capital concentra a imensa maioria: 4.051 casos. Depois vêm Santo André (261), São Bernardo do Campo (173) e Guarulhos (136).
Dentro da cidade de São Paulo, a Vila Mariana virou o bairro mais visado, com 196 ocorrências, seguida por Ipiranga (159), Tatuapé (147) e Penha (142). São bairros de classe média, com muita gente estacionando na rua e muitos SUVs passando a noite na calçada.
A quarta-feira foi o dia com mais registros (1.035), seguida por quinta (986), terça (954) e sexta (635). O período da noite concentra 1.704 casos, e a tarde, 1.070. Ou seja: o crime acompanha a rotina da semana útil, não o fim de semana. É o carro que fica parado enquanto o dono trabalha, estuda ou dorme.
O que isso faz com o seu seguro
As seguradoras não precisam de reportagem para saber disso. O índice de roubo e furto de cada modelo, cruzado com o CEP de pernoite, é um dos principais componentes do preço da apólice. Quem tem um Kicks que dorme na rua na zona sul de São Paulo deve esperar que a renovação reflita uma alta de 55,8% nas ocorrências do modelo, ainda que o efeito exato varie de empresa para empresa.
Também é comum que, para modelos visados, a seguradora exija ou dê desconto pela instalação de rastreador. Vale perguntar ao corretor antes de renovar: em alguns casos, o desconto paga parte da mensalidade do equipamento. E vale cotar em mais de uma empresa, porque o peso dado ao modelo e ao bairro muda bastante entre elas.
Para quem está pensando em comprar um usado, a lista também é informação de preço. Um SUV muito visado custa mais para segurar, e esse custo anual entra na conta de quanto o carro realmente sai por mês. Às vezes, um modelo menos desejado pelos ladrões, com seguro mais barato, compensa uma diferença de alguns milhares de reais no preço de compra.
Por que esses modelos
Não há mistério: os mais levados estão entre os mais vendidos, e carro muito vendido significa demanda alta por peças no mercado paralelo, de faróis e retrovisores a centrais multimídia e rodas. Um SUV desmontado pode valer mais em partes do que inteiro, e o comprador da peça usada sem nota raramente pergunta de onde ela veio. A presença do EcoSport, fora de linha há anos e com frota grande, é o exemplo mais claro dessa lógica.
A entrada de Pulse e Fastback segue o mesmo raciocínio: são modelos que já acumulam alguns anos de vendas fortes e, portanto, uma frota grande de seminovos circulando e uma oficina cheia de clientes precisando de peça.
O que fazer se o seu carro está na lista
Pense no carro parado, não no carro rodando. Com quase 90% de furtos, o momento de risco é quando você não está nele. Garagem fechada, estacionamento com manobrista e vaga iluminada perto de movimento valem mais do que qualquer película.
Rastreador e bloqueador. Rastreador ajuda a recuperar o carro antes do desmanche, e bloqueador dificulta a partida. Os dois juntos são o padrão que as seguradoras costumam valorizar. Peça instalação em local discreto, não no lugar óbvio que o ladrão já conhece.
Trava física ainda funciona. Trava de volante ou de pedal parece coisa de 1995, mas atrasa quem tem pressa, e furto é crime de pressa. O ladrão escolhe o carro que dá menos trabalho na mesma rua.
Cuidado com a chave presencial. Em carros com chave por aproximação, guarde a chave longe da porta de casa e, se possível, numa capa que bloqueia o sinal. A chave reserva também merece um lugar seguro, não o porta-luvas.
Grave o chassi nos vidros e anote os dados. A gravação dificulta a revenda das peças, e ter placa, chassi e Renavam à mão acelera o boletim de ocorrência e o acionamento do rastreador, quando cada minuto conta.
Revise a apólice. Confira se a cobertura inclui roubo e furto (algumas modalidades mais baratas não incluem), qual é o valor de indenização e se o CEP de pernoite declarado está correto. Informação errada nessa linha é o tipo de detalhe que vira dor de cabeça justamente no dia em que você precisa do seguro.
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