JAC volta à recuperação judicial: o que muda para quem tem um carro da marca na garagem
Em 2011, a JAC Motors fez uma estreia que entrou para o folclore do mercado brasileiro: inaugurou 50 concessionárias num único dia. Era a chegada triunfal dos chineses, com carro completo, preço agressivo e o empresário Sergio Habib, que já tinha trazido a Citroën ao país, como rosto da operação. A promessa era clara: a marca vinha para ficar.
Quinze anos depois, ela ficou, mas em versão compacta. A JAC tem hoje três pontos físicos de venda no Brasil, em São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. E, nesta semana, o Grupo SHC, que representa a fabricante por aqui, voltou a bater na porta da Justiça.
O pedido de recuperação judicial foi protocolado na terça-feira, 6, na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central de São Paulo, segundo a revista Exame, que revelou o caso. Ele reúne 44 empresas do grupo e declara R$ 239,5 milhões em dívidas. Segundo a AutoData, um único banco teria mais de R$ 100 milhões a receber.
Segunda temporada, mesmo elenco
Não é a primeira vez. O Grupo SHC já havia pedido recuperação judicial em 2018, quando o passivo passava de meio bilhão de reais. Naquela época, a Citroën, que era o principal negócio do grupo, fechou as concessionárias, e a JAC foi preservada como operação central. O plano foi homologado em setembro de 2019 e o processo, que se arrastou por anos, só foi encerrado em maio de 2025.
O histórico não é exatamente animador. Um relatório de 2021 citado pela AutoData apontava que, até março daquele ano, o grupo tinha quitado "apenas R$ 957 mil dos débitos incluídos na recuperação", além de registrar atrasos em pagamentos a funcionários e prestadores de serviço e em algumas entregas de veículos. Em resumo: saiu do hospital no ano passado e voltou ao pronto-socorro pouco mais de um ano depois.
Na petição, segundo as reportagens que repercutiram o pedido, o grupo atribui a nova crise à volta do imposto de importação sobre carros eletrificados e afirma que mais de 35% do faturamento vinha sendo consumido pelo serviço da dívida bancária e financeira. Procurado pela Quatro Rodas e pela AutoData, o Grupo SHC não se manifestou.
Os números de uma marca que encolheu
Os emplacamentos contam a história sem precisar de adjetivo. Segundo dados da Fenabrave, a JAC registrou 988 veículos leves vendidos em 2025, queda de 51,1% em relação aos 2.022 de 2024, num ano em que o mercado brasileiro cresceu quase 3%. Em 2026, entre janeiro e setembro, foram 373 unidades: 146 do compacto elétrico E-JS1, 10 do hatch E-JS3 e 217 da picape Hunter.
Para efeito de comparação, 373 carros em nove meses é menos do que algumas marcas chinesas emplacam numa única tarde de sábado. A JAC apostou cedo nos elétricos, chegou antes da BYD e da GWM, e depois viu as duas chegarem com fábrica, escala, rede de lojas e preço que ela não conseguia acompanhar. Ser pioneiro é ótimo até o vizinho chegar com um caminhão de dinheiro.
O portfólio encolheu junto. O SUV E-JS4 e o sedã E-J7 saíram de linha, e o futuro do E-JS1 é incerto. As versões híbrida e elétrica da Hunter, prometidas, não vieram. A picape segue apenas na versão a diesel 4Work, por R$ 219.900, mirando agronegócio e frotistas. O cliente pessoa física deixou de ser prioridade, e a venda migrou para o canal digital.
E a minha garantia?
Esta é a pergunta que interessa a quem tem um JAC na garagem, e a resposta tem duas partes: a jurídica e a prática.
Na parte jurídica, recuperação judicial não é falência. A empresa continua operando, e o objetivo do processo é justamente permitir que ela renegocie dívidas sem ser desmontada por execuções. Se o pedido for aceito, ações e execuções contra o grupo ficam suspensas por 180 dias, e ele terá 60 dias para apresentar um plano de pagamento aos credores. As obrigações com o consumidor, como a garantia contratual e o atendimento a recalls, não desaparecem por causa do pedido. E o Código de Defesa do Consumidor, no artigo 32, obriga fabricantes e importadores a garantir a oferta de peças enquanto o produto for fabricado ou importado e, depois disso, por um período razoável.
Na parte prática, o cenário é menos confortável. Uma empresa com caixa apertado tende a priorizar o que mantém as portas abertas, e o estoque de peças de reposição é capital parado. Para atender os donos, a JAC aposta em 142 oficinas credenciadas pelo país, uma rede pulverizada que a empresa diz garantir assistência sem a estrutura de concessionárias tradicionais. Funciona enquanto a peça chega. Quem tem carro de nicho, como os elétricos que saíram de linha, deve ficar mais atento a prazos de entrega de componentes específicos, como módulos eletrônicos, peças de carroceria e itens do sistema de alta tensão.
Vale lembrar também que a JAC chinesa e o Grupo SHC são empresas diferentes. A fabricante segue existindo na China; quem está em recuperação é a operação que importa, vende e dá suporte aos carros aqui. É uma distinção que conforta pouco na hora de esperar uma peça, mas ajuda a entender que o carro não ficou "órfão" de projeto, e sim de representante financeiramente saudável.
O que fazer se você tem um JAC
Faça as revisões em dia e guarde tudo. Nota fiscal, ordem de serviço, carimbo no manual. Se houver disputa de garantia, a prova é sua, e ela vale mais do que nunca quando a empresa do outro lado está renegociando dívidas.
Descubra hoje qual é a oficina credenciada mais próxima. Não espere o carro parar para fazer a pesquisa. Ligue, pergunte se atende o seu modelo e qual o prazo médio de peças.
Consulte recalls pelo chassi. Se houver chamado aberto, agende agora. É obrigação da empresa, e não há motivo para deixar para depois.
Em caso de negativa, Procon. Garantia recusada ou peça que não chega em prazo razoável é problema de consumo, e o caminho é registrar reclamação formal, não esperar boa vontade.
Pense na revenda com realismo. Marca com rede encolhida e notícia de recuperação judicial costuma perder valor mais rápido. Se a ideia é trocar de carro nos próximos meses, vale acompanhar a tabela e não contar com milagre.
A história da JAC no Brasil é um lembrete útil para quem se encanta com a lista de equipamentos de uma marca nova: carro não se compra só pelo que vem dentro dele, mas pelo que existe em volta, a rede, a peça, o técnico, a empresa que atende o telefone daqui a cinco anos. Em 2011, foram 50 lojas num dia. Em 2026, o dono de um JAC precisa de uma só que funcione.
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