Carro ficou mais barato? Picape compacta despenca entre os novos e SUV usado lidera a queda entre os seminovos
Durante uns bons anos, o brasileiro se acostumou a uma regra esquisita: o carro usado valorizava. Você comprava, rodava dois anos e vendia por quase o mesmo preço, às vezes por mais. Era a pandemia, a falta de chips, a fila na concessionária e a sensação geral de que qualquer coisa com quatro rodas era um investimento. Pois bem: a festa acabou faz tempo, e os números de setembro mostram que a ressaca continua.
Segundo o monitoramento mensal da Tabela Auto B3, feito em parceria com a Bright Consulting e divulgado pela Quatro Rodas nesta terça-feira (20), os preços de transação dos carros zero-quilômetro caíram em média 0,8% em setembro, depois de uma alta de 2,7% em agosto. No acumulado de doze meses, o 0 km está 2,4% mais barato. No mercado de usados, a queda foi maior: 1,7% no mês (contra 0,1% em agosto) e 5,9% em doze meses.
Parece pouco? Num carro de R$ 100 mil, 5,9% são quase R$ 6 mil a menos em um ano, sem contar a depreciação natural pela idade e pela quilometragem. E a média esconde segmentos que caíram bem mais.
Picape compacta: a guerra da Saveiro de saída
Entre os novos, a campeã de desvalorização foi a picape compacta: menos 4,4% em setembro e menos 11% em doze meses. Quem explica é Cassio Pagliarini, diretor de marketing da Bright Consulting: "A saída da VW Saveiro, ela está sendo comercializada com preços bastante agressivos. A Fiat Strada precisa reagir para se manter competitiva. E existe a expectativa da chegada de novos produtos no mercado".
Traduzindo: a Saveiro está em fim de carreira, a Volkswagen prepara a Tukan, e liquidação de fim de linha costuma derrubar o preço do segmento inteiro, porque o concorrente direto precisa acompanhar. A Saveiro, segundo a reportagem, não deve sair de linha de imediato com a chegada da Tukan, mas deve ficar no mercado em configuração mais enxuta. Para quem precisa de uma picape pequena para trabalho, este é provavelmente o melhor momento de negociação dos últimos anos.
Na direção oposta, os SUVs de entrada foram os que mais subiram no mês, com alta de 2,3%. E, no acumulado de um ano, quem mais valorizou foram as picapes intermediárias, também com 2,3%. Ou seja, nem tudo está em liquidação: o segmento da moda continua segurando preço no zero.
Por que o SUV usado está caindo mais que os outros
No mercado de usados, a história se inverte. Os SUVs foram os que mais perderam valor: menos 2,6% em setembro e menos 10,82% em doze meses. A menor queda ficou com os hatches, de 1,1% no mês e apenas 0,73% em um ano.
A explicação de Pagliarini é de oferta pura: "O SUV usado, ele tem quatro ou cinco anos. Ao olhar para trás, quatro ou cinco anos, você não vê um mix de vendas dos SUVs no nível que está hoje, com 40%, 45%, 50% [de participação de mercado]. Com o tempo, os SUVs ficaram sobre valorizados, e agora cada vez mais estão chegando mais SUVs usados no mercado com um mix mais alto do que tinha antes".
Faz sentido. O Brasil passou a comprar SUV em massa há poucos anos, e essa leva agora chega ao pátio das lojas de seminovos. Quando tem muito do mesmo produto à venda, o preço cede. O hatch, ao contrário, ficou relativamente escasso porque as montadoras tiraram vários modelos de linha, e quem procura um carro pequeno e barato encontra menos opções.
Há ainda o fator chinês. Para o especialista da Bright, os carros chineses são "um ponto de partida" para entender a queda, e os fabricantes tradicionais "têm que reagir na tabela e aumentar incentivos para tentar permanecerem competitivos". Os dados de emplacamento reforçam: segundo boletim do site AutoEntusiastas com base no Renavam analisado pela própria Bright, as marcas chinesas ficaram com 20,6% dos emplacamentos de automóveis e comerciais leves na primeira quinzena de outubro, mais que o dobro dos 9,6% de um ano antes. Quando um SUV zero chinês, cheio de equipamento, custa o mesmo que um SUV tradicional usado de três anos, o vendedor do usado é que precisa baixar a pedida.
Tabela Auto B3 não é Tabela Fipe
Um cuidado antes de sair brandindo esses números na concessionária. A Tabela Auto B3 foi lançada em novembro de 2024 pela bolsa brasileira em parceria com a Bright, com preços regionalizados (o anúncio falava em 133 mesorregiões) e foco no preço de transação, aquele pelo qual o carro de fato muda de dono. A Fipe, que todo mundo conhece e que serve de base para seguro e IPVA em muitos estados, é outra metodologia. As duas podem andar em ritmos diferentes, e uma média nacional de segmento não diz quanto vale o seu carro específico.
Também vale lembrar que a queda de setembro veio depois de um agosto de alta de 2,7% nos novos. Um mês não é tendência. O que pesa mais é o acumulado de doze meses, e esse aponta para baixo nos dois mercados.
E 2027? O imposto ainda é uma incógnita
Quem está pensando em esperar o ano que vem para comprar tem um fator a mais na conta: ninguém sabe quanto o carro vai pagar de imposto em 2027. Com a reforma tributária, o IPI sobre automóveis deveria dar lugar ao Imposto Seletivo, cujos critérios incluem potência, eficiência energética, segurança, emissões e etapas de produção feitas no Brasil. Só que, como a regulamentação não saiu até 2 de outubro, a regra da noventena impede que a cobrança comece em 1º de janeiro. Segundo o mesmo boletim, o Ministério da Fazenda estuda uma Proposta de Emenda à Constituição para manter o IPI temporariamente e evitar um buraco de arrecadação, que calcula em R$ 3,82 bilhões só em janeiro, somando todos os setores afetados.
Na prática, as montadoras seguem sem base definitiva para fechar preços de 2027. Pode ficar igual, pode subir para alguns modelos e cair para outros. Apostar nisso hoje é chute.
O que fazer com isso, comprando ou vendendo
Se você vai comprar zero: picape compacta está no melhor momento de barganha. Pesquise a Strada e a Saveiro em mais de uma concessionária, peça o preço de transação (não o de tabela) e pergunte por bônus na troca. No segmento de SUV de entrada, o preço subiu no mês, então a negociação tende a ser mais dura.
Se você vai comprar usado: o SUV de quatro ou cinco anos é onde está a maior oferta, e oferta grande é poder de negociação. Use isso. Mas não deixe o desconto apagar o básico: histórico de revisões, laudo cautelar, conferência de quilometragem e um mecânico de confiança olhando suspensão, câmbio e freios antes de fechar.
Se você vai vender: a vida está mais difícil, principalmente para quem tem SUV. Anunciar pelo preço que o carro "valia ano passado" é receita para ficar meses sem proposta. Olhe anúncios de carros parecidos na sua região, considere que a loja vai pagar abaixo da Fipe e, se o objetivo é trocar, faça as contas da operação inteira: o desconto que você dá no usado pode ser compensado pelo bônus que consegue no novo.
E, para todo mundo, o lembrete de sempre: carro não é investimento. Ele perde valor desde o dia em que sai da loja. O que muda de um ano para outro é só a velocidade da queda, e neste momento ela está mais rápida para quem tem SUV na garagem.
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