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O seguro do carro elétrico ainda é mais caro — mas a diferença encolheu tanto que já há empate técnico

O seguro do carro elétrico ainda é mais caro — mas a diferença encolheu tanto que já há empate técnico

Todo mundo que já cogitou comprar um carro elétrico no Brasil passou pelo mesmo ritual de banho de água fria. Você faz a conta da economia com combustível, se anima. Faz a conta da manutenção reduzida, se anima mais. Aí liga para o corretor de seguros, diz o modelo, e ouve do outro lado da linha aquele silêncio de dois segundos que, no ramo securitário, é sinônimo de "senta que lá vem história".

A boa notícia de 2026 é que o silêncio ficou mais curto. Um levantamento com modelos deste ano mostra que a diferença de prêmio entre elétricos e seus equivalentes a combustão diminuiu de forma expressiva em relação a 2025 — e, em alguns casos, virou detalhe de arredondamento. A má notícia é que "em alguns casos" está fazendo um trabalho pesado nessa frase.

Os números, sem maquiagem

Vamos aos pares. O Renault Kwid, a R$ 99.990, tem seguro anual de R$ 3.226,30. O Kwid E-Tech, que custa menos — R$ 83.790 —, sai por R$ 3.518,60. Diferença: R$ 292,30 no ano, ou vinte e quatro reais e cinquenta por mês. É menos que uma pizza. Para efeito prático, o seguro deixou de ser argumento contra o elétrico nessa faixa.

Na outra ponta do espectro, o contraste é brutal. O VW Nivus, de R$ 156.890, tem prêmio de R$ 3.053,60. O BYD Dolphin, de R$ 149.990 — ou seja, mais barato que o Nivus —, custa R$ 5.133,20 para segurar. São R$ 2.079,60 de diferença por ano, quase 68% a mais, para um carro que vale menos. O padrão se repete no par VW T-Cross (R$ 181.990, seguro de R$ 2.987,10) contra GWM Ora 5 (R$ 159.990, seguro de R$ 4.715,40): R$ 1.728,30 de diferença.

No meio do caminho, os SUVs maiores mostram convergência. Jeep Compass a R$ 174.990 tem seguro de R$ 4.283,90; o Leapmotor B10, a R$ 172.990, sai por R$ 5.013,90 — R$ 730 de diferença. E no topo, o Renault Boreal (R$ 199.990, prêmio de R$ 5.509,60) contra o Geely EX5 (R$ 205.800, prêmio de R$ 5.853,70): apenas R$ 344,10 separam os dois. Nos elétricos de entrada sem par direto a combustão, o BYD Dolphin Mini (R$ 118.990) fica em R$ 4.860,60 e o Geely EX2 (R$ 123.800) em R$ 4.911,30.

Leia essa tabela de novo e um padrão aparece: quanto mais caro o carro, menor a diferença percentual. O elétrico barato é penalizado; o elétrico caro, quase não. Não é coincidência — é a lógica interna do cálculo de risco aparecendo à luz do dia.

Por que a seguradora cobra mais: a resposta está no orçamento da funilaria

Segundo José Varanda, coordenador da Escola de Negócios e Seguros (ENS), a diferença de preço se explica por três frentes: sistemas de bateria e componentes de alta tensão que exigem reparo especializado, mão de obra qualificada em quantidade escassa e complexidade eletrônica que encarece qualquer intervenção.

Traduzindo para a vida real: seguradora não cobra pelo que o carro consome, cobra pelo que custa consertá-lo depois da batida. E o elétrico tem uma peculiaridade que assombra qualquer regulador de sinistro — a bateria de tração pode representar entre 30% e 40% do valor do veículo, ocupa todo o assoalho e fica exatamente onde acontece a maioria dos impactos laterais e de raspagem de solo. Um toque forte na lateral que num carro a combustão renderia troca de porta e pintura pode, num elétrico, gerar suspeita de dano na estrutura da bateria — e a suspeita, sozinha, já obriga a uma bateria de testes que custa caro.

Some a isso o fator escassez. Reparar carro elétrico exige oficina com equipamento de isolação, técnico certificado em alta tensão e procedimento de desenergização antes de qualquer solda. Toda restrição de oferta vira preço. Quando poucas oficinas conseguem fazer o serviço, o serviço custa o que a fila permite cobrar.

Existe, porém, um contramovimento simpático: algumas seguradoras já lançaram coberturas específicas para eletrificados, incluindo proteção de bateria e do cabo de recarga — item que, sim, é furtado com frequência crescente em estacionamentos públicos, porque é caro, pequeno e ninguém consegue provar de quem é depois.

O que fez o preço cair: a estatística finalmente existe

A queda dos prêmios em relação a 2025 tem uma explicação nada glamourosa e muito honesta: agora existem dados. Seguro é o ramo mais dependente de histórico que a economia inventou, e por anos as seguradoras precificaram carro elétrico no Brasil praticamente no escuro, cobrando o prêmio da ignorância — aquela margem extra que se aplica ao que não se conhece.

Com a frota crescendo, o escuro acabou. Julho de 2026 registrou 25.782 emplacamentos de elétricos, alta de 268% na comparação anual, e os eletrificados já respondem por uma fatia expressiva do mercado. Como resume Varanda, as "seguradoras têm conhecimento melhor desses veículos e podem acumular mais informações" sobre frequência de sinistro e custo médio de reparo. Quando a curva de dados aparece, a margem de segurança encolhe.

O segundo fator é a concorrência. Mais modelos significam mais peças no mercado de reposição, mais concessionárias, mais oficinas credenciadas e — crucialmente — mais seguradoras dispostas a disputar a apólice. Nada derruba prêmio como um concorrente disposto a cobrar menos pelo mesmo risco.

Como pagar menos, na prática

Varanda faz uma observação que vale emoldurar: "o custo do seguro depende cada vez mais do modelo do veículo, do custo de reparação, da experiência de sinistros, da seguradora e sobretudo do perfil do segurado". Aquele "sobretudo" é a parte que está no seu controle.

Antes de fechar a compra do elétrico, cote o seguro. Não depois — antes. Peça cotação de pelo menos quatro seguradoras diferentes, e observe que a variação entre elas costuma ser maior para elétricos do que para combustão, justamente porque cada uma tem uma leitura própria do risco. É perfeitamente possível encontrar diferenças de 30% para o mesmo carro, mesmo perfil, mesma cobertura.

Confira também o que está e o que não está coberto. Duas perguntas específicas separam a apólice boa da apólice armadilha: a bateria de tração está coberta em caso de dano por impacto, e não apenas por defeito de fabricação? O cabo e o carregador portátil entram em furto? Se a resposta for vaga, peça por escrito. Vago no telefone vira negado na regulação.

Por fim, considere a instalação da recarga em casa como parte do cálculo. Elétrico carregado em garagem própria roda menos em rua, estaciona menos em local público, e alguns perfis de uso pesam favoravelmente na precificação. É um detalhe pequeno, mas o seguro é feito exatamente disso: uma pilha de detalhes pequenos multiplicada por probabilidade.

O que os números de 2026 contam, no fim, é a história de um mercado saindo da adolescência. O elétrico deixou de ser o aluno estranho que a seguradora não sabia como avaliar e virou mais uma linha na tabela — com suas particularidades, seus custos e sua estatística. Ainda paga mais caro em vários casos, e vai continuar pagando enquanto reparar bateria for artesanato. Mas quando o Kwid E-Tech custa vinte e quatro reais por mês a mais que o Kwid comum, a discussão deixou de ser sobre tecnologia e passou a ser sobre gosto. É o tipo de progresso que não vira manchete, mas muda decisão de compra.

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