AutoCidade Editorial

A carteira que engordou 750 quilos: por que a CNH B agora dirige elétricos de 4,25 toneladas

A carteira que engordou 750 quilos: por que a CNH B agora dirige elétricos de 4,25 toneladas

Existe um número que quase nenhum motorista brasileiro sabe de cor, mas que governa silenciosamente a vida dele desde 1997: 3.500 quilos. É o peso bruto total máximo que uma Carteira Nacional de Habilitação categoria B autoriza a dirigir. Está lá no artigo 143 do Código de Trânsito Brasileiro, escrito numa época em que carro elétrico no Brasil era assunto de feira de tecnologia e de reportagem sobre "o futuro".

O futuro chegou com sobrepeso.

Desde 14 de setembro de 2026, a Lei 15.503 abriu uma exceção nesse número que atravessou quase trinta anos intocado. Veículos de propulsão elétrica — ou híbridos de tração predominantemente elétrica — passam a ser dirigíveis com CNH B até 4.250 kg de peso bruto total. São 750 quilos de folga, concedidos não porque o motorista ficou mais habilidoso, mas porque a bateria ficou mais pesada.

A física cobrou a conta antes da lei

Para entender por que a regra precisou mudar, basta pesar uma bateria. Um pacote de 100 kWh, o tipo que equipa SUVs grandes e picapes elétricas, raramente pesa menos de meia tonelada. Não existe truque de engenharia que faça isso desaparecer: célula de lítio armazena energia por unidade de massa numa ordem de grandeza inferior à da gasolina, e o resultado aparece na balança.

Um SUV médio a combustão fica confortavelmente abaixo das duas toneladas. O equivalente elétrico, com autonomia de verdade, orbita as três. Picapes elétricas full-size e vans de entrega eletrificadas, que nos Estados Unidos e na Europa já circulam aos milhares, passam dos 3.500 kg de PBT sem esforço nenhum — e não por serem veículos mais complexos de conduzir, mas por carregarem o equivalente a três motores a combustão em forma de células empilhadas sob o assoalho.

O absurdo prático era esse: o mesmo motorista que dirige legalmente um utilitário a diesel de 3,4 toneladas precisaria, pela letra antiga da lei, tirar categoria C para conduzir a versão elétrica do mesmo veículo, com o mesmo tamanho, a mesma carga útil e — tipicamente — freios melhores e centro de gravidade mais baixo. A norma não estava medindo dificuldade de condução. Estava medindo química de bateria.

O que a lei diz, e o que ela não diz

Convém ler com atenção, porque o texto é mais estreito do que a manchete sugere.

O limite geral da categoria B continua sendo 3.500 kg. A lei não subiu o teto para todo mundo: criou um acréscimo de 750 kg válido exclusivamente para veículos com propulsão elétrica ou híbridos com tração predominantemente elétrica. Quem dirige um utilitário a diesel de 3,8 toneladas segue precisando de categoria C, e vai continuar precisando.

O peso considerado é o peso bruto total — veículo, ocupantes e carga somados, o número que está no documento —, não o peso em ordem de marcha. Isso muda a conta na prática: uma van elétrica de 3.100 kg vazios com mil quilos de carga útil ultrapassa o limite antigo, mas cabe no novo.

E há uma lacuna importante. A expressão "tração predominantemente elétrica" ainda não tem definição técnica fechada em resolução. Cabe ao Contran publicar os critérios, e é nessa publicação que se decide quem entra: híbridos plug-in e os elétricos de autonomia estendida — aqueles em que o motor a combustão funciona como gerador — devem ficar dentro; os micro-híbridos de 48 volts, o chamado MHEV, que usam o motor elétrico apenas como assistente do motor a combustão, quase certamente ficam fora. A rigor, um MHEV não é um carro de tração elétrica com apoio a gasolina. É um carro a gasolina com um alternador bem-educado.

Vale registrar também que esse artigo é, tecnicamente, uma carona. A Lei 15.503/2026 trata majoritariamente de outra coisa: autoriza a União a destinar até R$ 30 bilhões em linhas de financiamento reembolsável para renovação de veículos usados profissionalmente, com critérios de sustentabilidade. A mudança na CNH entrou como dispositivo dentro de um pacote sobre frota profissional — o que diz bastante sobre quem o legislador tinha em mente.

A Europa passou por aqui primeiro

O Brasil não inventou a exceção. A União Europeia já havia feito o mesmo movimento em 2018, autorizando condutores de carteira B a dirigir veículos de combustível alternativo acima de 3,5 toneladas até um teto semelhante, condicionado a requisitos como tempo mínimo de habilitação e treinamento específico. A lógica europeia era explicitamente logística: a última milha das entregas urbanas estava eletrificando, e a regra de peso ameaçava transformar cada van elétrica num veículo que exigia motorista de categoria superior — encarecendo justamente a alternativa que a política pública queria incentivar.

O mesmo raciocínio se aplica aqui com precisão desconfortável. O segmento que mais eletrificou no Brasil nos últimos anos não foi o do carro de passeio de luxo: foi o da entrega urbana. Frotas de e-commerce, distribuidoras de bebidas, transportadoras de última milha. Empresas que compram dez, vinte, cinquenta veículos de uma vez e que descobriram, na hora de contratar, que o mercado de motoristas categoria C é bem menor e bem mais caro do que o de categoria B.

É por isso que a mudança, apesar de vir embrulhada em conversa sobre carros elétricos, é sobretudo uma medida de frota.

O que muda na oficina — e nos pneus

Aqui entra a parte que ninguém coloca em release de sanção: 750 quilos a mais não somem quando o veículo sai da concessionária. Eles vão para o pavimento, para a suspensão, para o freio e, principalmente, para os pneus.

Veículo eletrificado pesado desgasta pneu mais rápido, e não é impressão de motorista. O torque instantâneo do motor elétrico e a massa adicional aceleram o consumo da banda de rodagem de forma mensurável. Isso já vem exigindo pneus de construção reforçada — os marcados como XL, ou os desenvolvidos especificamente para carros eletrificados, com carcaça mais rígida e composto preparado para carga maior. Trocar por um pneu de índice de carga inferior, "porque era o que tinha na loja", passa a ser um problema de segurança, não de economia.

Freio segue lógica inversa e igualmente traiçoeira. Como a frenagem regenerativa faz boa parte do trabalho, pastilha e disco de carro eletrificado duram muito mais — e, justamente por serem pouco usados, oxidam. Disco corroído por baixo uso é uma das queixas mais recorrentes nas oficinas que começaram a receber essa frota. A revisão deixa de ser sobre substituir peça gasta e passa a ser sobre inspecionar peça parada.

E há a suspensão, que carrega o peso extra a cada buraco. Em um país onde o pavimento urbano é, digamos, uma variável, amortecedor e bucha de veículo eletrificado pesado trabalham num regime mais severo do que o manual de um carro equivalente a combustão sugeriria.

Uma carteira nova para um veículo velho de guerra

Ainda faltam definições. Sem a resolução do Contran, permanece a dúvida sobre quais tecnologias híbridas atendem ao critério de "tração predominantemente elétrica", e é razoável esperar que algum fabricante tente esticar a interpretação a seu favor. Também não há, no texto brasileiro, exigência explícita de treinamento adicional como a europeia — o que significa que, por ora, o condutor recebe a permissão sem curso complementar sobre um veículo que se comporta de forma diferente na frenagem, na inércia e na distância de parada.

Essa é a tensão que a lei deixa em aberto. Do ponto de vista da engenharia, dirigir uma van elétrica de 4 toneladas não é mais difícil que dirigir uma van a diesel de 3,4 — em vários aspectos é mais fácil. Do ponto de vista da física, 750 quilos a mais são 750 quilos a mais em qualquer colisão, e a energia cinética não consulta a categoria da habilitação antes de agir.

O Código de Trânsito de 1997 mediu motoristas pelo peso do que eles conduziam porque, naquele mundo, peso era um bom indicador de complexidade: mais pesado significava maior, mais longo, mais difícil de manobrar. A eletrificação quebrou essa correlação. A lei acaba de reconhecer isso pela primeira vez — e, ao fazê-lo, admitiu que o parâmetro que usamos por três décadas para decidir quem pode dirigir o quê era, no fundo, uma aproximação.

Funcionou enquanto a energia veio em forma de líquido. Agora que ela vem em forma de metal, vai ser preciso outro critério.

Leia a materia completa na fonte original:

Ver no AutoCidade Editorial

Compartilhar