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Trinta segundos, um alicate e R$ 30 mil: o cabo virou o alvo mais fácil da eletromobilidade

Trinta segundos, um alicate e R$ 30 mil: o cabo virou o alvo mais fácil da eletromobilidade

O crime perfeito, neste país, raramente envolve engenhosidade. Ele envolve um alicate, um serrote e uma noite de terça-feira.

A cena se repete em estacionamentos de shopping, pátios de posto 24 horas e vagas descobertas de condomínio: alguém para ao lado do carregador, encosta a ferramenta na base do cabo e corta. Menos de trinta segundos depois, some com alguns metros de mangueira preta enrolada debaixo do braço. Não precisa de conhecimento técnico, não precisa desmontar nada, não precisa nem saber o que é um conector Tipo 2. Precisa saber que ali dentro tem cobre.

E tem. Muito.

O metal que subiu 100% e transformou infraestrutura em sucata valiosa

Um cabo de recarga não é um fio de varal. É um conjunto de condutores de seção grossa — porque precisa transportar corrente alta sem esquentar — envolto em blindagem, isolação reforçada e, nos carregadores rápidos, um circuito de refrigeração. É, em termos de mercado ilegal, um dos objetos com maior densidade de cobre por metro acessível na rua.

O preço internacional do cobre subiu mais de 100% nos últimos cinco anos. Esse número, sozinho, explica por que o Brasil vive uma epidemia de furto de fiação que começou em rede elétrica e telefonia e chegou, inevitavelmente, à eletromobilidade. O criminoso corta, queima o revestimento para liberar o metal, e vende a sucata em ferro-velho. O ciclo inteiro dura menos de um dia.

Casos recentes foram registrados em Curitiba, Florianópolis e Brasília, mas a distribuição geográfica diz menos do que parece: o furto acompanha a infraestrutura. Onde há eletroposto novo, há alvo novo. E a rede brasileira de recarga cresceu rápido demais para ter crescido protegida.

A conta que ninguém coloca no plano de negócios

Aqui está o dado que faz o operador perder o sono. O cabo furtado, sozinho, custa de R$ 5 mil a R$ 7 mil. A reposição num carregador rápido — cabo, conector, mão de obra, comissionamento — vai de R$ 8 mil a R$ 10 mil. E quando o corte arranca terminais, danifica o módulo de potência ou compromete o sistema de refrigeração, o prejuízo na infraestrutura chega a R$ 30 mil.

Trinta mil reais. Por um material que, transformado em sucata, rende ao ladrão uma fração ridícula disso.

E o prejuízo não termina na peça. Um carregador vandalizado fica indisponível por dias ou semanas esperando componente, e um carregador indisponível não fatura. Para o operador, é receita perdida num negócio cujo retorno já é calculado em anos. Para o motorista, é um ponto a menos no mapa — e quem dirige elétrico sabe que o mapa de recarga não é um luxo de planejamento, é a diferença entre chegar e não chegar.

Há ainda o efeito mais caro de todos, o que não entra em planilha: confiança. Cada estação fora do ar reforça a desconfiança de quem ainda hesita em trocar o tanque pela tomada. O furto de cabo não rouba só cobre. Rouba argumento de venda.

O número que não existe

Não há estatística oficial consolidada sobre furto em eletropostos no Brasil. Nenhum órgão publica série histórica, nenhum boletim separa "cabo de recarga" de "fiação em geral". O que existe são relatos de empresas que operam a rede, e esses relatos apontam na mesma direção: aumento recorrente de ocorrências, concentrado em áreas abertas, estacionamentos e pontos de funcionamento ininterrupto, quase sempre no período noturno.

A ausência do dado não é detalhe burocrático. Sem número, não há política pública dirigida, não há mapeamento de área crítica, não há como a seguradora precificar o risco direito — e a apólice específica para esse tipo de ativo ainda é assunto que algumas operadoras estão apenas começando a avaliar. O problema existe inteiro na prática e pela metade no papel.

A lei ficou mais dura. O cabo continua do lado de fora

Do lado legislativo, houve resposta. A Lei 15.181/2025, publicada em 29 de julho de 2025, alterou o Código Penal para endurecer a punição a quem mexe com fios, cabos e equipamentos de infraestrutura essencial.

O furto desse tipo de material passou a ser crime qualificado, com pena de 2 a 8 anos de reclusão. O roubo — quando há violência ou ameaça — vai de 6 a 12 anos. E a receptação qualificada, que alcança quem compra a sucata sabendo da origem, pode chegar a 16 anos. Essa última é, tecnicamente, a mais importante das três: furto de cobre é crime de demanda. Sem ferro-velho comprando, não há noite de terça-feira com alicate.

Só que pena alta pressupõe alguém sendo pego, e o perfil desse crime é justamente o oposto: rápido, de baixa sofisticação, cometido em local sem vigilância, com um objeto que não tem número de série visível nem rastreamento depois de queimado. A lei fecha a porta dos fundos. O cabo continua exposto na calçada da frente.

Por isso a defesa virou engenharia

Enquanto o dado não vem e a lei não alcança, o setor está se defendendo do jeito que dá — e o jeito que dá é físico.

As soluções em campo hoje incluem porta com fechadura integrada, que mantém o cabo trancado no gabinete e só libera por aplicativo, no momento em que a sessão de recarga começa. Videomonitoramento ativo, com câmera apontada para o ponto de saque. Telemetria, que dispara alerta remoto no instante em que o cabo é desconectado fora de uma sessão autorizada. Cabo de aço passado por dentro ou por fora do conjunto, encarecendo o corte. E grade fechando o equipamento nos horários de menor movimento.

É uma lista que soa exagerada até você comparar com a alternativa: R$ 30 mil e três semanas de máquina parada.

Para quem opera um ponto — shopping, condomínio, frota, oficina que instalou carregador para clientes — vale tratar o eletroposto como se trata qualquer ativo exposto: iluminação no entorno, câmera com gravação retida, cabo recolhido fora do horário comercial e contato direto com o fabricante sobre kit de retrofit de tranca. Muitos modelos instalados há três ou quatro anos saíram de fábrica sem qualquer trava, num tempo em que ninguém imaginava que o cabo seria o item mais visado do conjunto.

Para quem dirige elétrico, a orientação prática é menos dramática e mais chata: não confie num único ponto de recarga no trajeto. Tenha alternativa mapeada, cheque a disponibilidade no app antes de sair, e prefira estações em área monitorada quando for deixar o carro carregando por horas. Se a dúvida ainda é sobre encarar ou não a troca de tecnologia, o comparativo entre carro elétrico e carro a combustão coloca custo de recarga, manutenção e infraestrutura lado a lado — e a fragilidade da rede é, sim, uma das variáveis honestas dessa conta.

Há uma ironia difícil de ignorar nessa história. Passamos duas décadas discutindo autonomia de bateria, tempo de recarga, densidade energética, química de célula — problemas de engenharia elegantes, resolvidos por doutores em laboratórios caros. E o gargalo que apareceu primeiro na esquina de casa não tem nada de elegante: é um sujeito com um alicate, um metal que virou commodity global e uma tomada pública que ninguém pensou em trancar.

O futuro chegou. Só esqueceram de prender ele no chão.

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