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O rádio AM sumiu dos carros elétricos por causa de "chiado" — e agora o Congresso americano quer obrigar as montadoras a colocá-lo de volta

O rádio AM sumiu dos carros elétricos por causa de "chiado" — e agora o Congresso americano quer obrigar as montadoras a colocá-lo de volta

Existe uma disputa acontecendo nos Estados Unidos que parece saída de uma máquina do tempo. De um lado, a tecnologia mais moderna do automóvel: os carros elétricos, com seus motores silenciosos, baterias de alta tensão e centrais multimídia do tamanho de uma televisão. Do outro, uma tecnologia que completou um século de vida: o rádio AM, aquela faixa chiada que transmite jogo de futebol, notícia de rodovia e programa de rádio evangélico desde os anos 1920. E o mais improvável: quem está ganhando a queda de braço, por enquanto, é o centenário.

A história começa com um problema de engenharia genuíno. Os carros elétricos operam com sistemas de altíssima voltagem — o inversor, o motor, o carregador de bordo, tudo trabalhando com correntes que gerariam inveja em uma subestação. Esse balé elétrico produz, como efeito colateral, uma quantidade generosa de ruído eletromagnético. E a faixa AM, por sua natureza técnica, é extraordinariamente sensível a esse tipo de interferência. O resultado é aquele chiado insuportável que transforma qualquer estação num festival de estática. Diante disso, montadoras como Tesla, BMW, Ford e Volkswagen tomaram a decisão mais pragmática possível: se o AM não funciona direito no elétrico, tira o AM.

Parecia o fim natural de uma tecnologia obsoleta. Só que alguém esqueceu de avisar os 82 milhões de americanos que, segundo os dados citados no debate, ainda sintonizam a faixa AM todos os meses. E, mais importante, esqueceram de avisar o Congresso.

Uma lei chamada "AM para Todo Veículo"

O nome já entrega a intenção: AM Radio for Every Vehicle Act, ou "Lei do Rádio AM para Todo Veículo". A proposta, que ganhou tração em 2025, quer transformar o rádio AM em item obrigatório de fábrica em todos os carros novos vendidos nos Estados Unidos — elétricos incluídos, sem desculpas de interferência eletromagnética. E o projeto não é uma bandeira solitária de um parlamentar excêntrico: reuniu 317 co-patrocinadores só na Câmara dos Representantes, um número que, em um Congresso notoriamente dividido, beira o milagre bipartidário. A medida foi inclusive incorporada ao pacote de infraestrutura Build America 250, já passou pelas comissões e aguarda a votação plenária, com prazo esperado antes de setembro.

O principal defensor da causa, o deputado Tom Emmer, de Minnesota, tem repetido o argumento central a quem quiser ouvir: o rádio AM não é entretenimento nostálgico, é infraestrutura de segurança pública. A faixa AM, por transmitir em ondas longas que viajam centenas de quilômetros e atravessam montanhas e prédios, é a espinha dorsal do sistema americano de alertas de emergência. Quando um furacão, um tornado ou uma enchente derruba a energia e as antenas de celular, o AM continua no ar, alimentado por geradores, alcançando áreas rurais onde nenhuma outra tecnologia chega. Nos Estados Unidos, existem 4.342 licenças de rádio AM ativas — contra 22.205 de FM —, mas muitas cobrem justamente o interior esvaziado onde o sinal digital nunca pisou.

O argumento do outro lado: dinheiro e um dado inconveniente

As montadoras, representadas pela Alliance for Automotive Innovation, não estão engolindo a proposta caladas. E o argumento delas tem dois pilares. O primeiro é o custo. Blindar o sistema de um elétrico contra a própria interferência eletromagnética — com gaiolas de proteção, cabos especiais e filtragem — não sai de graça. As estimativas citadas falam em até US$ 360 (cerca de R$ 1.900) a mais por veículo nos casos mais complexos, embora, diluído no mercado inteiro, o custo médio caia para algo como US$ 32 por carro. Somando tudo ao longo de sete anos, a indústria projeta um gasto de US$ 3,8 bilhões — quase R$ 20 bilhões — para manter viva uma tecnologia que, do ponto de vista delas, o consumidor está abandonando por conta própria.

O segundo pilar é um dado deliciosamente inconveniente para os defensores do AM. Um estudo da FEMA, a agência americana de gestão de emergências, revelou em 2023 que apenas 1% dos adultos americanos recebeu alertas de emergência pela via do rádio AM. Um por cento. A esmagadora maioria foi avisada por notificação de celular, aquele alarme estridente que faz o telefone tremer na mesa. Ou seja: o argumento de que o AM é insubstituível para salvar vidas esbarra na realidade de que quase ninguém, na prática, foi salvo por ele recentemente. As montadoras adorariam que o Congresso olhasse para esse número antes de votar.

Uma queda de braço sobre o que é essencial

No fundo, essa disputa é menos sobre rádio e mais sobre uma pergunta filosófica embutida em toda transição tecnológica: quem decide quando algo vira passado? A audiência do AM está em queda desde 1978 — quase meio século de declínio constante. Pela lógica fria do mercado, a faixa deveria seguir o caminho do toca-fitas e do CD, saindo de cena sem alarde. Mas o rádio AM carrega uma função social que o mercado não precifica: ele é o último recurso de comunicação de massa que funciona quando tudo o mais falha. E é aí que o Estado entra dizendo à indústria que nem tudo que dá prejuízo deve morrer.

Há também um subtexto que ninguém verbaliza em voz alta, mas todos entendem. Os radiodifusores de AM — donos de milhares de estações espalhadas pelo país — têm um interesse óbvio em preservar o alcance de sua plataforma dentro dos carros, onde boa parte da audiência acontece. De outro lado, as montadoras querem liberdade para desenhar o painel do futuro sem carregar o peso morto de uma tecnologia de 1920. A briga tem cara de segurança pública, mas por baixo pulsa uma disputa muito antiga por influência e por audiência.

E o Brasil, nisso tudo? Por aqui, a faixa AM segue viva, embora em processo de migração para o FM há anos, e os elétricos que desembarcam no país — sobretudo os chineses — chegam com o pacote de multimídia que a matriz definiu lá fora. Se a lei americana passar, é possível que a solução de blindagem eletromagnética vire padrão global de fábrica, respingando também nos carros que rodam aqui. Seria um final irônico: o rádio mais antigo do automóvel sobrevivendo à era elétrica não por mérito de mercado, mas por força de lei. Às vezes, a tecnologia do futuro é obrigada, no grito, a carregar o passado no porta-luvas.

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