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O imposto de 35% sobre elétricos importados já está valendo — mas uma brecha de R$ 2,4 bilhões explica por que os preços não vão subir amanhã

O imposto de 35% sobre elétricos importados já está valendo — mas uma brecha de R$ 2,4 bilhões explica por que os preços não vão subir amanhã

Existe uma regra não escrita no comércio internacional: toda muralha tem uma porta lateral. A partir de 1º de julho de 2026, o Brasil ergueu sua muralha mais alta contra os carros elétricos importados — a alíquota do Imposto de Importação saltou de 25% para 35%, o teto permitido pela Organização Mundial do Comércio. No papel, é o fim da festa dos elétricos chineses baratos que invadiram o país nos últimos anos. Na prática, a porta lateral está escancarada, tem tamanho oficial de US$ 463 milhões e atende pelo nome técnico de "cota de importação para veículos desmontados".

Para entender como chegamos aqui, vale rebobinar a fita. Em novembro de 2023, o governo federal anunciou um cronograma de retomada gradual do imposto sobre eletrificados, que havia sido zerado anos antes para estimular o mercado. A lógica era de escada: as alíquotas subiriam degrau por degrau até alcançar os 35% em julho de 2026, dando tempo para as montadoras interessadas no mercado brasileiro fazerem a conta e concluírem que valia mais a pena produzir aqui do que importar de lá.

A conta, ao que tudo indica, foi feita. BYD ergueu fábrica em Camaçari, na Bahia. GWM assumiu a antiga planta da Mercedes em Iracemápolis, no interior paulista. E o mercado, enquanto isso, não parou de crescer: as vendas de elétricos e híbridos avançaram 170% no ano passado, provando que o brasileiro gosta de tomada, desde que o preço caiba no bolso.

A escada acabou — mas nem para todo mundo

O degrau final da escada funciona assim: carros que chegam prontos do exterior — os chamados CBU, sigla em inglês para "completamente montados" — pagam 35% de imposto desde o dia 1º. Sem exceção, sem choro, sem cota. É o caso de qualquer elétrico que desembarque no porto pronto para rodar.

A história muda de figura quando o carro chega em pedaços. Kits CKD — totalmente desmontados, praticamente um lego automotivo que exige linha de montagem de verdade — seguem pagando apenas 14% até 31 de dezembro de 2026, subindo para os 35% só em janeiro de 2027. Kits SKD, parcialmente desmontados, pagam 35% também, mas com um detalhe importante: dentro de uma cota especial, o imposto é simplesmente zero.

Essa cota é a estrela do sistema. Vigente de 1º de julho a 31 de dezembro de 2026, ela permite importar até US$ 463 milhões — algo em torno de R$ 2,4 bilhões — em kits CKD e SKD sem pagar um centavo de imposto de importação. É a renovação de uma janela idêntica que funcionou entre agosto de 2025 e janeiro deste ano. Traduzindo: quem tem fábrica no Brasil, ainda que ela faça basicamente o aparafusamento final, continua trazendo seus carros da China quase de graça, do ponto de vista tarifário.

E quem tem fábrica no Brasil? Exatamente as chinesas que a tarifa, em tese, deveria conter. A BYD, que respondeu por impressionantes 65,67% dos emplacamentos de veículos a bateria entre janeiro e maio de 2026, produz em Camaçari pelo regime SKD e migra gradualmente para CKD. A GWM segue caminho parecido em Iracemápolis. Para elas, o imposto de 35% é um problema dos outros.

Por que o preço não sobe na segunda-feira

Se você estava adiando a compra de um elétrico com medo de um tarifaço da noite para o dia, respire. O consumidor não deve sentir aumento imediato nas concessionárias, e a razão é de uma esperteza quase folclórica: as montadoras se anteciparam e criaram estoques massivos de carros desembaraçados com as taxas antigas. Os pátios estão cheios de veículos que entraram no país pagando 25% ou menos — e é esse estoque que vai abastecer as lojas nos próximos meses, segurando os preços enquanto durar.

Há também um fator de mercado que joga a favor do comprador: a guerra de preços entre as marcas chinesas está longe de acabar. Na mesma semana em que o imposto novo entrou em vigor, a BYD cortou R$ 35 mil do Dolphin Mini, a GWM baixou R$ 20 mil do Ora 03 e a Omoda prepara versão de entrada do E5 por R$ 149.900. Com essa disputa de foice em andamento, repassar imposto ao consumidor é luxo que ninguém pode se permitir — pelo menos por enquanto.

O horizonte de médio prazo, porém, é menos generoso. Quando os estoques pré-tarifa acabarem e a cota de R$ 2,4 bilhões se esgotar, a matemática muda. Carros importados prontos — caso de modelos premium, de marcas sem fábrica local e de tudo que vem da Europa e dos Estados Unidos — tendem a encarecer na proporção direta da nova alíquota. Um elétrico de R$ 300 mil que pagava 25% pode custar dezenas de milhares de reais a mais quando o efeito completo chegar à ponta.

A briga institucional que vem por aí

Nem todo mundo aplaudiu o desenho final da política. A Anfavea, associação que representa as montadoras instaladas há décadas no país, e a Fiesp manifestaram descontentamento público com a renovação da cota zero para kits, alegando que a decisão foi tomada sem consulta ao setor produtivo. O argumento das veteranas tem sua lógica: elas investiram bilhões em fábricas completas, com estamparia, solda, pintura e motorização nacionais, e agora assistem concorrentes chinesas montarem carros a partir de kits importados pagando imposto zero. A associação já ameaça, inclusive, levar a questão à Justiça.

Do outro lado, o governo defende que a política "fortalece a indústria e atrai investimentos" — e aponta para Camaçari e Iracemápolis como prova material de que a estratégia funciona. A aposta oficial é que o regime de kits seja apenas uma fase de transição: à medida que as alíquotas sobre CKD também subirem, em 2027, as operações de montagem serão empurradas a nacionalizar cada vez mais etapas e fornecedores, gerando a industrialização de verdade que todo governo persegue desde que o primeiro Fusca saiu de São Bernardo.

Se a aposta vai se confirmar, só o tempo dirá. A história da indústria automotiva brasileira está cheia de regimes especiais que prometiam nacionalização profunda e entregaram aparafusamento eterno. Mas também está cheia de céticos que duvidaram de fábricas que hoje empregam milhares.

Enquanto isso, na concessionária, o recado para o consumidor é simples: o elétrico que você quer comprar provavelmente ainda está com preço de imposto antigo — e com desconto de guerra chinesa por cima. Aproveite a trégua. Muralhas demoram a fazer efeito, mas costumam fazer.

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