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A gasolina E35 entrou em teste. No Congresso, tem gente pedindo o caminho inverso: gasolina sem etanol nenhum

A gasolina E35 entrou em teste. No Congresso, tem gente pedindo o caminho inverso: gasolina sem etanol nenhum

A gasolina brasileira tem uma relação peculiar com a palavra "gasolina". Desde 2015, mais de um quarto de cada litro que saía da bomba era etanol anidro. Em agosto de 2025, a mistura subiu para 30%. Em 1º de agosto deste ano, para 32%. E, na sexta-feira, 18 de setembro, o Ministério de Minas e Energia publicou no Diário Oficial o plano de testes para o próximo degrau: 35%.

Se a escada continuar nesse ritmo, em algum momento vai ser mais honesto chamar o produto de "etanol com um pouco de gasolina". Ainda não chegamos lá. Mas a direção é clara — e, curiosamente, ela está sendo contestada ao mesmo tempo por gente que quer exatamente o oposto.

O que está sendo testado, e por quanto tempo

O plano de testes da E35 foi aprovado em 11 de setembro pelo Comitê Técnico Permanente do Combustível do Futuro, o colegiado criado para acompanhar a lei que autorizou a ampliação da mistura, e formalizado pelo MME uma semana depois. As avaliações começam agora e devem se estender até 2027.

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Segundo o que foi divulgado, os testes vão medir cinco coisas: consumo e autonomia, emissões, durabilidade de longo prazo de componentes como mangueiras, vedações e bicos injetores, compatibilidade dos materiais com o álcool — ou seja, corrosão — e o comportamento dos veículos mais antigos, que não são flex. Só depois dos resultados o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) decide se a E35 vira a gasolina comum do país.

A ordem dos fatores importa, e não por acaso. A E32 entrou em vigor em agosto sem um programa de testes de durabilidade dessa envergadura, e o resultado foi barulho. Representantes da indústria reclamaram publicamente. O Ministério Público Federal entrou com uma ação civil pública pedindo a suspensão da E32, uma perícia técnica independente antes da adoção definitiva e R$ 500 milhões de indenização por danos coletivos. O argumento: risco de corrosão em peças metálicas, desgaste prematuro de bombas de combustível e falhas na injeção eletrônica, com atenção especial a motos, carros antigos e importados.

A E32, vale lembrar, foi autorizada por 180 dias, prorrogáveis por mais 180. Ou seja, a mistura atual ainda está, tecnicamente, em período de avaliação — e a próxima já entrou na fila.

Do outro lado da praça, a gasolina pura

Enquanto o Executivo testa mais etanol, o Legislativo recebe pedidos de menos. Três propostas, levantadas pelo FlatOut, tratam do assunto.

A mais radical é o PL 4.783/2026, do deputado Dr. Fernando Máximo (PL-RO), apresentado em julho: libera a venda de gasolina pura, a E0, nos postos. No Senado, uma ideia legislativa apresentada pelo portal e-Cidadania passou de 20 mil apoios e virou a Sugestão 30/2026, hoje na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa, com relatoria do senador Laércio Oliveira. Ela propõe a venda opcional de E10 e E0 ao lado da mistura obrigatória, citando importados, clássicos, motos, geradores, máquinas agrícolas, barcos e carros de competição. E há o PLP 249/2026, do deputado Messias Donato (União-ES), que mantém a mistura nacional obrigatória, mas permite que cada estado autorize a venda de E0 ou E10, e que cada posto decida se quer oferecer.

Há ironias de sobra nesse enredo. O autor do projeto da gasolina pura apoiou, antes, a lei do Combustível do Futuro, que abriu caminho para a mistura maior. O autor do PLP votou a favor da E35. É o tipo de coerência que só o Congresso consegue produzir: a favor do aumento e a favor da exceção ao aumento, no mesmo mandato.

Nenhuma das três propostas tem data para votação. Mas elas dizem algo sobre um público que existe e está incomodado: o dono do carro que não foi projetado para o Brasil.

O que muda, de fato, no motor

Aqui é preciso separar o carro flex de todo o resto.

O flex nacional foi feito para rodar com qualquer proporção entre gasolina e etanol hidratado. Para ele, sair de 32% para 35% de etanol na gasolina é mudança pequena: a central eletrônica lê a sonda lambda, percebe mais oxigênio no escapamento e ajusta a injeção. O efeito que o motorista sente é no bolso. Um litro de etanol entrega cerca de 70% da energia de um litro de gasolina. Numa conta simplificada, a E32 tem aproximadamente 1,5% menos energia por litro que a antiga E27,5, e a E35 teria perto de 1% a menos que a E32. Não é o fim do mundo, mas é um pedágio que se acumula a cada degrau — e que só vale a pena se o preço na bomba acompanhar, algo que as promessas de barateamento das rodadas anteriores não entregaram de forma visível.

O problema está no carro que não é flex. Importados, especialmente os europeus e americanos calibrados para E10 ou menos. Carros nacionais anteriores ao flex, que saíram de fábrica pensando em 22% de etanol. Motos, sobretudo as mais antigas e as de carburador. E a longa lista de motores pequenos que ninguém lembra até precisar deles: gerador, roçadeira, motor de popa.

O etanol é mais agressivo com certas borrachas e plásticos do que a gasolina. Ele também absorve umidade do ar, o que favorece a corrosão em componentes metálicos do sistema de combustível quando o veículo fica muito tempo parado. E ele age como solvente, soltando depósitos antigos do tanque que vão parar no filtro e nos bicos. Nenhum desses efeitos é imediato. São desgastes que aparecem em meses ou anos, o que explica tanto a insistência em testes longos quanto a dificuldade de provar, caso a caso, que uma bomba queimada foi culpa da mistura.

O que a oficina deve olhar

Para quem tem carro flex e usa gasolina comum, a recomendação prática não muda muito: manter a troca do filtro de combustível em dia e prestar atenção a sintomas como marcha lenta irregular, dificuldade de partida a frio ou luz de injeção acesa.

Para quem tem importado não flex, carro antigo ou moto, a atenção precisa ser maior. Vale pedir ao mecânico, na próxima revisão, uma inspeção das mangueiras e vedações do sistema de combustível, da bomba e do sensor de nível, e uma leitura dos parâmetros de correção de mistura da injeção — se a central já está trabalhando perto do limite para compensar o etanol, mais três pontos percentuais podem empurrá-la para fora da faixa. Donos de modelos que o fabricante recomenda abastecer com gasolina de menor teor de etanol têm uma saída hoje: a gasolina premium, que segue com 25% de etanol, mais cara, mas mais próxima do que o motor espera.

Para quem guarda um carro por semanas ou meses, vale o conselho de sempre, agora com mais razão: tanque cheio, uso periódico e, se possível, combustível fresco antes de longos períodos parado.

No fim, o país vive uma situação curiosa. O governo testa a E35 até 2027 enquanto a E32 ainda está em período de avaliação e é contestada na Justiça. O Congresso discute gasolina pura para uma minoria de carros que realmente precisa dela. E o motorista comum, que só quer encher o tanque e ir trabalhar, descobre que o combustível que ele chama de gasolina muda de receita a cada agosto — e que a próxima receita já está em teste.

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