Fiuk vira réu por acelerar carros na garagem de madrugada — e o caso diz mais sobre motor a combustão do que sobre celebridade
Todo entusiasta de carro conhece a tentação. O motor está frio há dias, a garagem tem eco de catedral, e existe uma convicção íntima — cientificamente questionável, emocionalmente inegociável — de que o carro "precisa esquentar de vez em quando". Aí a chave gira, o seis-em-linha acorda, e por trinta segundos gloriosos a vida faz sentido. O problema é quando a garagem fica num condomínio, os trinta segundos viram madrugadas recorrentes, e os vizinhos, em vez de aplaudirem a sinfonia mecânica, chamam o Ministério Público.
É o resumo do caso que transformou Fiuk — cantor, ator, piloto de drift e filho de Fábio Jr. — em réu na Justiça paulista. Segundo a denúncia do Ministério Público de São Paulo, aceita em 7 de julho de 2026, o artista de 35 anos tinha "o hábito de ligar e acelerar veículos na garagem da residência durante a madrugada" em um condomínio de Alphaville, em Barueri, entre janeiro de 2025 e março de 2026. Quatorze meses de trilha sonora involuntária para os vizinhos, que aparentemente não compartilham do apreço pelo ronco de um V8 às três da manhã.
O repertório da garagem, é preciso admitir, tem curadoria: BMW M3, Ford Mustang, Nissan 350Z e — numa nota de brasilidade que redime o resto da lista — um Chevette. São os carros ligados à carreira paralela de Fiuk no drift, esporte em que ele compete há anos com resultados respeitáveis. O detalhe importa para a defesa e para a física: carro de drift exige manutenção constante, e motor de competição parado é motor criando problema.
O artigo 42, o vilão discreto da vida em condomínio
O enquadramento jurídico do caso é uma relíquia funcional: o artigo 42, inciso III, da Lei das Contravenções Penais — um decreto-lei de 1941 que segue em vigor, oitenta e cinco anos depois, como principal ferramenta contra a barulheira alheia. O texto pune quem "perturbar alguém, o trabalho ou o sossego alheios, abusando de instrumentos sonoros ou sinais acústicos". Em 1941, o legislador pensava em vitrolas e buzinas; a jurisprudência moderna estendeu o guarda-chuva para caixas de som, cultos, bares e, agora, motores de competição em garagens residenciais.
A pena prevista é prisão simples de 15 dias a três meses, ou multa. Antes que alguém imagine o cantor atrás das grades, vale o esclarecimento técnico: contravenção de menor potencial ofensivo praticamente nunca termina em cela. O rito normal é transação penal — um acordo com serviços comunitários ou pagamento de multa que encerra o processo sem condenação. E aqui o caso ganha seu contorno mais curioso: Fiuk recusou exatamente esse acordo, oferecido em 30 de junho, que previa serviços à comunidade ou multa.
A recusa é uma aposta. A defesa afirma que ele "nega as acusações", que "respeita seus vizinhos" e não tem intenção de incomodar ninguém, e pediu que o caso seja analisado pela Justiça Restaurativa — um modelo que privilegia mediação e reparação em vez de punição. Traduzindo do juridiquês: em vez de pagar a multa e seguir a vida, o artista prefere sentar com os vizinhos e discutir a relação. É um caminho mais longo, mais arriscado e, dependendo do resultado, mais definitivo.
Em defesa (parcial) do motor acelerado
Este é um site de automóveis, então façamos a pergunta que o processo não fará: existe justificativa mecânica para ligar carros de madrugada? Meia resposta. Carros de uso esporádico de fato se beneficiam de funcionamento periódico — bateria descarrega, vedações ressecam, combustível envelhece, e um motor que atinge temperatura de operação de tempos em tempos evita condensação interna e borra de óleo. Qualquer preparador recomenda.
Nenhum preparador, porém, recomenda fazer isso às três da manhã, e a física explica por quê: não há necessidade técnica de acelerar um motor frio parado — aliás, é ativamente ruim para ele, que deveria aquecer em marcha lenta ou, melhor ainda, rodando com suavidade. Escapamento esportivo de M3 e Mustang em garagem de concreto funciona como instrumento de percussão amplificado. A manutenção justificaria ligar os carros; não justifica o horário nem a acelerada. O que a denúncia descreve, se verdadeira, não é zelo mecânico — é recreação sonora em horário de silêncio.
E os números da vida em condomínio são implacáveis: barulho é, disparado, a principal causa de conflito condominial no Brasil, à frente de vaga de garagem e animais. A novidade do caso Fiuk é a escalada — a maioria das brigas de decibéis morre em advertência e multa do síndico. Chegar a denúncia criminal aceita significa que o repertório administrativo se esgotou, ou que a paciência da vizinhança se esgotou primeiro.
O precedente que interessa a quem tem garagem
Para além da celebridade, o caso estabelece um lembrete útil ao entusiasta comum: a paixão automotiva termina, juridicamente, onde começa o sono do vizinho. Não existe salvo-conduto para manutenção, hobby ou preparação de competição. O dono de projeto de garagem que liga o carro sem escapamento aos domingos de manhã responde ao mesmo artigo 42 que o filho de Fábio Jr. — apenas com menos fotógrafos na porta do fórum.
Há soluções conhecidas, todas mais baratas que um processo: agendar o funcionamento para horário comercial, usar abafadores de teste, alugar box em galpão ou — a mais moderna — bateria mantenedora e combustível estabilizado, que reduzem drasticamente a necessidade de ligar o motor. O drift pode ser uma arte da derrapagem controlada, mas a vida em condomínio é a arte oposta: a do atrito evitado.
O processo segue seu curso, e Fiuk tem direito à presunção de inocência que todo réu merece. Mas fica a moral provisória da história, válida para garagens de Alphaville e de qualquer lugar: o ronco de um M3 é música. Só que música, como sabe qualquer um que já morou parede com parede com um baterista, é um conceito que depende inteiramente de qual lado da parede você está.
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