AutoCidade Editorial

A Mercedes estendeu a garantia do cabeçote no mundo inteiro. Menos aqui

A Mercedes estendeu a garantia do cabeçote no mundo inteiro. Menos aqui

Existe uma frase que todo mecânico brasileiro já ouviu de um cliente que voltou da concessionária com o orçamento na mão e a expressão de quem levou um golpe: "eles disseram que é a gasolina".

É uma explicação perfeita, do ponto de vista de quem a usa. É impossível de provar e impossível de refutar. O combustível brasileiro tem, de fato, particularidades — teor de etanol elevado, variação regional, adulteração real em parte da rede. Sempre que uma peça quebra, existe uma versão da história em que a culpa é do posto.

O problema é quando essa explicação é usada para encobrir um erro de fabricação que a própria fábrica já admitiu, por escrito, do outro lado do Atlântico.

O que acontece dentro do cabeçote

A história técnica é simples e desagradável.

Os motores 2.0 das famílias M260 e M264, montados nos Mercedes-Benz Classe A, CLA, GLA e GLB produzidos entre 2019 e 2022, apresentam desgaste prematuro da sede e da guia da válvula de escapamento no cabeçote.

A sede da válvula é o anel onde a válvula se apoia quando fecha. É uma peça que precisa aguentar temperatura altíssima, milhões de impactos e vedação perfeita. Quando ela se desgasta antes da hora, a válvula deixa de assentar direito. A vedação falha. A câmara de combustão perde compressão de forma irregular.

Os sintomas chegam ao motorista traduzidos: funcionamento irregular, falha na marcha lenta, perda de desempenho. O carro fica "esquisito" antes de ficar quebrado.

E aqui está a parte cruel do cronograma. O desgaste geralmente aparece a partir dos 50 mil quilômetros — ou seja, quando o carro, teoricamente, já saiu do período de garantia contratual. Um defeito que nasce na linha de montagem, mas só se manifesta quando a cobertura acabou.

Se o problema evolui, a coisa piora bastante. A sede pode se soltar. Uma peça metálica solta dentro da câmara de combustão significa dano em pistão e cilindro — o tipo de estrago que transforma um reparo de cabeçote em uma reconstrução de motor. E a combustão irregular também eleva o nível de emissões pelo escapamento, o que interessa a qualquer regulador ambiental do planeta.

As oficinas que resolveram investigar

A história não veio à tona por iniciativa da montadora. Veio de oficina independente.

A rede High Torque, em São Paulo, e o Autocentro Bosch Confiar, em Contagem (MG), começaram a receber carros com o mesmo defeito de cabeçote, no mesmo tipo de motor, na mesma faixa de quilometragem. Padrão repetido não é coincidência — é sintoma de projeto.

Ao investigar, encontraram o que a concessionária não contava: a matriz da Mercedes-Benz na Alemanha já havia instruído sua rede a estender a garantia desses motores para 15 anos ou 150 mil milhas — 241 mil quilômetros.

Quinze anos. Não é gesto de boa vontade. É a extensão de garantia que uma fabricante concede quando sabe exatamente o tamanho do problema que fabricou.

Nos Estados Unidos, o registro é público. O NHTSA, órgão de segurança de trânsito do governo americano, recebeu reclamações sobre a falha e o comunicado é direto: "A Mercedes-Benz reconheceu este defeito e concedeu uma extensão de garantia cobrindo o cabeçote do motor por até 15 anos ou 150.000 milhas nos veículos afetados (como Classe A, CLA, GLA e GLB). Entre em contato com uma concessionária local informando o número do chassi (VIN) para verificar a cobertura específica do seu veículo."

Reconheceu. Concedeu. Está escrito.

"A solução é examinada uma a uma"

E no Brasil?

Consultada, a fábrica se recusou a responder à questão levantada pela redação do AutoPapo e do Autoentusiastas. As concessionárias, procuradas, deram uma resposta que merece ser lida devagar: quando o carro chega com esse problema, "a solução é examinada uma a uma".

Na prática, isso significa três cenários possíveis para o mesmo defeito, no mesmo motor, sob o mesmo boletim técnico:

O cliente pode receber a garantia estendida e não pagar nada. Pode receber uma "cortesia" de 50% do valor — e pagar metade de um erro que não cometeu. Ou pode ter o cabeçote novo fornecido sem custo, mas pagar integralmente a mão de obra da troca, que num motor moderno não é exatamente barata.

Qual dos três você recebe depende de fatores que ninguém explica. Talvez do seu histórico de revisões na rede. Talvez da sua insistência. Talvez do humor do gerente de serviços naquela manhã.

É difícil encontrar uma palavra melhor que a usada pelo jornalista Boris Feldman ao descrever a prática: hipocrisia. Cobrar um tostão que seja pelo reparo de um defeito de manufatura confessado pela própria matriz é cobrar do cliente a conta de um erro alheio.

Vale registrar por que não houve recall: por não se tratar de um problema classificado como de segurança, a montadora não é obrigada a fazer chamamento público. O caminho escolhido foi o Boletim Técnico — documento interno, distribuído à rede, invisível para o consumidor. A fábrica recomenda o reparo sem custo. Recomendar não é obrigar.

O manual que veio de Portugal

Há um detalhe nessa história que resume, melhor do que qualquer análise, o nível de atenção que a filial brasileira dedica aos automóveis de passeio.

O manual do proprietário distribuído no Brasil aproveita a edição feita para Portugal. E o manual português, obviamente, não recomenda abastecimento com gasolina cujo teor de etanol supere 10% — porque em Portugal ninguém abastece com isso.

Só que a gasolina comum brasileira já estava em 27% de etanol quando esse manual circulava por aqui, e hoje o teor autorizado chega a 30%. Ou seja: o documento oficial que acompanha o carro orienta o dono a fazer algo tecnicamente impossível no país onde o carro foi vendido.

E aqui a ironia fecha o círculo. A mesma marca que culpava a gasolina brasileira pelo desgaste do cabeçote entrega ao cliente um manual que não reconhece a existência da gasolina brasileira.

Não é maldade. É desatenção — e a desatenção tem contexto. A Mercedes-Benz no Brasil é uma potência em veículos pesados: caminhões e ônibus são o coração da operação nacional, com fábrica, engenharia e rede consolidadas há décadas. Automóveis de passeio nunca tiveram o mesmo status.

A marca tentou produzir carros aqui duas vezes. O Classe A em Juiz de Fora, entre 1999 e 2005. O GLA e o Classe C em Iracemápolis, de 2016 a 2020, quando a fábrica foi desativada — e depois vendida para a chinesa GWM, o que por si só é uma frase que diz muito sobre a década. Hoje a Mercedes é apenas terceiro lugar no segmento de luxo no Brasil, atrás da BMW e da Volvo.

O que fazer se o seu carro está na lista

Se você tem um Classe A, CLA, GLA ou GLB fabricado entre 2019 e 2022 com motor 2.0, há um roteiro objetivo.

Primeiro: anote o número do chassi e consulte a cobertura. O comunicado do NHTSA orienta exatamente isso — apresentar o VIN e pedir a verificação da extensão de garantia aplicável ao veículo. Documente o pedido por escrito, e-mail ou protocolo, não por telefone.

Segundo: se o carro apresenta marcha lenta irregular ou perda de desempenho, não espere. O reparo do cabeçote é caro; o reparo do cabeçote depois que a sede se soltou e comeu o pistão é outro patamar de despesa.

Terceiro: exija que o diagnóstico seja registrado por escrito na ordem de serviço, com a referência ao Boletim Técnico. Documento interno mencionado em OS é documento que existe.

Quarto: se a resposta for cobrança parcial ou integral, o caminho do Código de Defesa do Consumidor está aberto. Vício oculto de fabricação tem prazo de reclamação contado a partir da constatação do defeito, não da compra do carro — e o reconhecimento público da matriz, somado ao comunicado do NHTSA, é prova documental de peso.

Quinto, e talvez o mais útil: procure uma oficina especializada de confiança para o diagnóstico. Foram elas, e não a rede autorizada, que descobriram e divulgaram essa história.

Garantia global, cliente local

O que essa história expõe não é um defeito de motor. Defeito de motor acontece, em toda marca, em todo país, e a maneira como a fábrica responde é o que separa uma marca premium de um adesivo caro no capô.

O que ela expõe é a existência de duas Mercedes-Benz. Uma que reconhece o erro, publica boletim, estende garantia para quinze anos e comunica ao regulador americano. Outra que atende o mesmo carro, com o mesmo defeito, e examina "uma a uma" enquanto sugere que o problema está no posto da esquina.

O cliente brasileiro pagou o mesmo preço premium. Comprou a mesma estrela de três pontas. Só não comprou, ao que parece, a mesma garantia.

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