Do Classe A ao Corvette: 10 carros que chocaram os puristas ao mudar o rumo de suas marcas
A apresentação do inédito Ferrari Luce reforça uma regra ingrata e constante na indústria automotiva: a inovação radical quase sempre é recebida com pedras. Quando uma fabricante consolidada decide ignorar sua própria cartilha para explorar novos segmentos ou tecnologias, o choque inicial com os entusiastas mais conservadores é inevitável.
A história mostra, no entanto, que muitas dessas apostas excêntricas e criticadas foram exatamente os botes salva-vidas que garantiram a sobrevivência financeira ou a modernização dessas empresas. Da mesma forma que o Ferrari Luce representa a movimentação da marca italiana para se adaptar às futuras exigências por redução de emissões na Europa.
Abaixo, listamos dez modelos que romperam tradições, apanharam da crítica no lançamento, mas deixaram uma marca definitiva na trajetória de suas fabricantes.
Porsche Cayenne – 2002
No início dos anos 2000, a ideia de um SUV ostentando o brasão de Stuttgart soava como uma ofensa imperdoável aos fãs do 911. O utilitário pesava mais de duas toneladas, tinha proporções que tentavam emular as curvas de um cupê esportivo e dividia a plataforma com o Volkswagen Touareg. A crítica foi pesada, mas o modelo entregou um comportamento dinâmico elogiável e se tornou um sucesso comercial absoluto. O Cayenne não apenas salvou a Porsche da falência, como gerou o caixa necessário para manter a linhagem dos esportivos tradicionais viva até hoje.
Mercedes-Benz Classe A – 1997
O Classe A precisou de ajuda eletrônica para não capotarDivulgação/Mercedes-Benz
A tentativa da marca alemã de entrar no segmento de compactos urbanos na década de 1990 resultou no exótico W168. O modelo adotava formato de minivan, tração dianteira e um assoalho duplo em formato de sanduíche, projetado para empurrar o motor sob a cabine em caso de colisão frontal. O visual peculiar já gerava controvérsia, mas a situação piorou quando o carro capotou no infame “teste do alce” feito por jornalistas suecos. A Mercedes precisou recolher os carros, adicionar controle de estabilidade como item de série e recalibrar a suspensão. Apesar do trauma, o Classe A vendeu milhões de unidades e abriu as portas da marca para um público mais jovem.
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Volkswagen Phaeton – 2002
Volkswagen Phaeton, sedã de luxo pouco conhecido no Brasil, mas presente desde então na EuropaAcervo/Quatro Rodas
O projeto nasceu de uma ambição pessoal de Ferdinand Piëch, então todo-poderoso do Grupo Volkswagen: criar o melhor e mais confortável sedã de luxo do mundo, capaz de rodar a 300 km/h o dia todo sob um calor de 50 graus sem que a cabine variasse de temperatura. A engenharia entregou uma obra de arte mecânica, compartilhando plataforma com a Bentley e trazendo opções de motores de 12 cilindros. O problema foi o emblema na grade. O mercado não aceitou pagar preço de Mercedes Classe S em um carro com o logotipo do Golf. Foi um fracasso comercial, mas elevou o padrão de qualidade construtiva de toda a linha da fabricante.
Ford Mustang Mach-e – 2021
Mustang Mach EFernando Pires/Quatro Rodas
Aplicar o nome mais sagrado da cultura automotiva americana em um SUV elétrico foi um movimento arriscado. Os fãs do clássico cupê V8 reagiram com indignação à apropriação do batismo “Mustang” para um utilitário familiar movido a bateria. A Ford justificou que a assinatura servia para transferir a herança de desempenho para a nova fase elétrica da empresa. Passada a fúria inicial, o mercado compreendeu a proposta, e o modelo se firmou como um dos elétricos mais consistentes em dinâmica e conectividade no mercado americano e europeu.
Aston Martin Cygnet
Aston Martin CygnetAcervo/Quatro Rodas
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Se o Cayenne era uma forma de fazer dinheiro, o Cygnet foi uma tentativa bizarra de burlar a legislação. Para cumprir as rigorosas metas de emissões médias da frota na Europa, a fabricante britânica de esportivos pegou um subcompacto Toyota iQ, trocou a grade, revestiu o interior de couro e cobrou três vezes o valor do carro original. A imprensa automotiva tratou o projeto como uma piada de mau gosto, apontando a incoerência de um compacto urbano de meros 98 cv ao lado de modelos V12. Durou pouco no mercado, mas a ironia fez do modelo um clássico moderno e um item de coleção procurado por puristas.
BMW Série 7 (E65) – 2001
BMW Série 7Divulgação/BMW
A quarta geração do sedã topo de linha da marca bávara, lançada em 2001, jogou no lixo as linhas esguias e conservadoras de seu antecessor. Sob o comando do controverso designer Chris Bangle, o carro ganhou faróis irregulares e uma tampa de porta-malas saltada que foi apelidada de “Bangle Butt”. Além do visual, ele aposentou botões tradicionais para introduzir a primeira e confusa geração do sistema iDrive, controlado por um botão giratório. Fãs assinaram petições exigindo a demissão do designer. Ironicamente, o carro vendeu mais que qualquer geração anterior e forçou toda a indústria a adotar centrais multimídia similares.
Lamborghini LM002 – 1986
Lamborghini LM002Divulgação/Lamborghini
Muito antes do Urus ou do segmento de super SUVs sequer existir, a marca italiana criou o “Rambo Lambo”. Nascido de um projeto militar fracassado, o utilitário parecia um caixote de metal calçado com pneus monstruosos feitos sob medida. A excentricidade chegava ao ápice no cofre do motor, que abrigava o mesmo V12 do superesportivo Countach. Ele pesava absurdos 2.700 kg, bebia combustível de forma desesperadora e tinha ergonomia terrível. Foi duramente criticado por fugir do DNA da marca na época, mas sua ousadia provou estar trinta anos à frente do que o mercado de altíssimo luxo iria desejar.
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Jaguar X-Type – 2001
Jaguar X-Typedivulgação/Jaguar
A fabricante inglesa precisava aumentar seu volume de vendas e decidiu descer um degrau para brigar com o BMW Série 3. Para cortar custos, utilizou a plataforma de tração dianteira do Ford Mondeo (já que ambas pertenciam ao mesmo grupo na época). O resultado foi um sedã com visual que tentava imitar forçadamente os modelos clássicos da marca, mas com um comportamento dinâmico genérico. A imprensa britânica não perdoou a diluição da exclusividade da Jaguar, e o estigma de “Mondeo vestido para festa” perseguiu o modelo durante toda sua vida útil, marcando uma fase sombria para o emblema do felino.
Ferrari FF – 2011
Ferrari FFDivulgação/Ferrari
Antes de se render aos SUVs de quatro portas com o Purosangue e ao elétrico Luce, a Ferrari tentou resolver a equação de espaço interno com a FF. Lançada em 2011, ela inaugurou o controverso formato “shooting brake” (uma perua de duas portas) em Maranello e introduziu o primeiro sistema de tração integral da marca. O visual, com a traseira cortada, dividiu opiniões e o sistema de tração complexo levantou dúvidas sobre a confiabilidade. Ainda que a estética não tenha agradado a todos, o carro entregou espaço para quatro adultos e comportamento de supercarro graças ao motor V12 dianteiro.
Chevrolet Corvette (C8) – 2020
Chevrolet Corvette Stingray C8Divulgação/Chevrolet
Mudar o motor de lugar depois de quase 70 anos de história exige coragem. A oitava geração do esportivo americano abandonou a tradicional configuração de motor dianteiro e longo capô para adotar uma arquitetura de motor central-traseiro. Os puristas reclamaram que o carro perdeu sua identidade visual, adotando proporções que pareciam imitar cópias genéricas de uma Ferrari. A revolta, no entanto, foi calada pelo cronômetro. A nova distribuição de peso e a dinâmica superior transformaram o Corvette em um supercarro capaz de bater rivais europeus que custam o triplo do seu preço.
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Leia a materia completa na fonte original:
Ver no Quatro Rodas