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Dirigir carro manual faz bem para o cérebro, diz neurocientista — e de repente aquela embreagem dura virou equipamento de saúde

Dirigir carro manual faz bem para o cérebro, diz neurocientista — e de repente aquela embreagem dura virou equipamento de saúde

Se você aprendeu a dirigir em carro manual, provavelmente guarda memórias afetivas do processo: o carro morrendo no meio do cruzamento, a subida em primeira com o coração na boca, o instrutor da autoescola segurando o próprio fôlego enquanto repetia "solta a embreagem devagar" pela quadragésima vez. O que você talvez não soubesse é que, durante todo aquele sofrimento, seu cérebro estava recebendo o equivalente neurológico de uma sessão de musculação. Pelo menos é o que sustenta um dos neurocientistas mais conhecidos do Japão.

Ryuta Kawashima não é um pesquisador qualquer. Professor da Universidade de Tohoku, ele ficou mundialmente famoso como o rosto — literalmente, sua caricatura aparecia na tela — da série Brain Age, da Nintendo, aquele fenômeno dos anos 2000 que convenceu milhões de pessoas a fazer continhas de matemática no videogame para "rejuvenescer o cérebro". Duas décadas depois, Kawashima voltou a dar o que falar com uma tese que soa como música para os ouvidos de todo entusiasta saudosista: dirigir carro com câmbio manual oferece benefícios neurológicos que o automático simplesmente não entrega.

E o argumento, apoiado em estudos de neuroimagem, é mais sólido do que a nostalgia gostaria de admitir.

O que acontece na sua cabeça entre a segunda e a terceira

Pense em tudo o que um motorista de carro manual faz ao se aproximar de uma esquina: monitora a velocidade do tráfego à frente, calcula o momento de reduzir, pisa na embreagem com o pé esquerdo, escolhe a marcha certa, movimenta a alavanca, dosa o acelerador com o pé direito para casar os giros e ainda mantém atenção no retrovisor. Tudo isso em dois ou três segundos, sem pensar conscientemente em nenhuma etapa. É uma coreografia de precisão executada por mãos, pés, olhos e ouvidos em paralelo.

Para o cérebro, segundo Kawashima, essa coreografia é ouro puro. As imagens de neuroimagem analisadas pelo pesquisador mostram que a operação do câmbio manual mantém em atividade constante o córtex pré-frontal — a região responsável pela memória de curto prazo, pela atenção e pelas decisões rápidas. É o que ele descreve como uma "carga mental de baixa intensidade persistente": nenhuma tarefa isolada é difícil, mas o conjunto exige que as vias neurais permaneçam acesas, ativas, treinadas.

E treino, em neurociência como na academia, gera proteção. A estimulação contínua dessas regiões, argumenta o professor, funciona como uma reserva cognitiva contra o envelhecimento cerebral — o mesmo princípio que faz médicos recomendarem palavras cruzadas, idiomas novos e instrumentos musicais para manter a mente afiada depois dos sessenta.

Já o carro automático, na descrição pouco lisonjeira de Kawashima, coloca esse mesmo córtex pré-frontal em "modo de controle de cruzeiro passivo e semiadormecido". O motorista vira supervisor de uma máquina que decide sozinha. Confortável? Sem dúvida. Estimulante para o cérebro? Tanto quanto assistir à televisão com o volante nas mãos.

Um remédio em extinção

A ironia é que essa suposta academia cerebral sobre rodas está desaparecendo das lojas exatamente enquanto a ciência descobre suas virtudes. Os números são de dar pena a qualquer purista. Nos Estados Unidos, apenas 0,7% dos compradores de carros novos escolhem câmbio manual — menos de um em cada cem. Nos showrooms americanos, restam somente 24 modelos que ainda oferecem a opção, a maioria esportivos de nicho vendidos para gente que trata a terceira marcha como patrimônio cultural. No Japão, terra do próprio Kawashima, a fatia fica entre 1% e 2%.

A Europa mediterrânea, por outro lado, segue como reserva ecológica da embreagem: 48% dos carros na Itália e 41% na Espanha ainda são manuais. Nesses países, trocar marcha continua sendo o modo padrão de existir no trânsito — o que, se a tese de Kawashima estiver certa, faz de romanos e madrilenhos involuntários praticantes de ginástica cerebral diária, entre uma buzinada e outra.

E o Brasil? Estamos no meio do caminho, mas correndo na direção americana. O câmbio manual ainda domina as versões de entrada — o Fiat Argo, a Strada básica, o Polo Track que levam trabalhadores ao serviço todos os dias —, mas a cada geração de produto ele perde espaço para automáticos e CVTs, que já são maioria absoluta nos lançamentos. A eletrificação deve dar o golpe final: carro elétrico não tem marchas para trocar, e híbridos raramente oferecem pedal de embreagem. A academia cerebral está fechando as portas, filial por filial.

Antes que você venda o automático

Cabem aqui as ressalvas de sempre, porque entusiasmo com estudo científico sem ressalva é como retífica sem torquímetro. A tese de Kawashima descreve um mecanismo plausível e apoiado em neuroimagem, mas não existe — ainda — um grande estudo de longo prazo provando que motoristas de câmbio manual desenvolvem menos demência que os de automático. O efeito descrito é o do treino cognitivo contínuo, e treino cognitivo pode ser obtido de muitas formas: aprender piano, jogar xadrez, discutir futebol com o sogro. O câmbio manual é uma via, não a única.

Também vale lembrar que o automático tem méritos que nenhum córtex pré-frontal paga sozinho: menos fadiga em congestionamento, acessibilidade para pessoas com limitações físicas, e as versões modernas até consomem menos combustível que as manuais equivalentes — uma inversão histórica que aposentou o argumento econômico dos puristas.

Mas há algo de reconfortante na ideia de que aquele gesto banal — pisar, engatar, soltar, acelerar — carrega valor que vai além do transporte. Numa era em que o carro caminha para dirigir sozinho e o motorista para virar passageiro, a ciência aparece para lembrar que fazer as coisas com as próprias mãos tem seu preço e sua recompensa. O preço todo mundo conhece: é a perna esquerda cansada no trânsito da volta pra casa. A recompensa, se Kawashima estiver certo, é chegar aos oitenta anos com o cérebro ainda sabendo exatamente quando reduzir para a segunda.

Não é um mau negócio. Especialmente para um equipamento que, nas versões de entrada, ainda sai de graça.

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