Câmbio de R$ 90.000? Peças de carros usados podem custar mais que o próprio veículo
Enquanto o valor de mercado de um carro usado cai naturalmente com o tempo, o custo de suas peças de reposição genuínas segue a lógica da indústria de carros novos, com valores definidos pelo cenário da indústria, pelas políticas das montadoras e pela própria cadeia de fornecimento – sujeita à cotação do dólar, inclusive. O resultado é que o reparo de uma avaria mecânica ou colisão leve pode superar o valor de Tabela Fipe do automóvel.
Esse descompasso costuma passar despercebido no uso cotidiano, nas revisões básicas de óleo e filtros, mas torna-se crítico quando há necessidade de uma manutenção mais específica. Diferente do veículo, que sofre depreciação por idade, quilometragem e desgaste, o componente de reposição na prateleira é um item novo.
De acordo com Ronaldo Fernandes, cofundador e proprietário do OficinApp — que integra preços de mercado das peças e usado nesta reportagem —, as peças de reposição não seguem a desvalorização dos veículos que as utiliza. Como são peças novas, elas são precificadas de acordo com os custos industriais vigentes.
Nos primeiros anos de vida do automóvel, existe uma paridade: carros caros têm peças caras; carros de entrada, peças acessíveis. Contudo, à medida que a garantia de fábrica expira e o veículo entra no mercado de usados, essa relação se rompe. Um carro de luxo usado barato continuará com peças de reposição caras, pois ainda serão componente sofisticados, fabricados com os mesmos processos e o rigor de quando o carro era novo.
Embora as colisões sejam o exemplo mais fácil de visualizar esse desequilíbrio, elas não são o único fator capaz de gerar um alto custo de manutenção ao qual até os carros mais comuns estão sujeitos. Falhas mecânicas, problemas estruturais, panes em sistemas mais complexos ou a necessidade de substituir conjuntos inteiros também entram nessa conta.
Para observar esse cenário na prática, reunimos exemplos de modelos em que a soma de peças comuns em reparos mais profundos chama atenção quando comparada ao valor do carro segundo a Tabela Fipe. A proposta não é criar um ranking nem destacar situações extremas, mas mostrar como diferentes tipos de intervenção podem transformar um conserto aparentemente viável em um custo difícil de justificar.
Volkswagen Gol City 1.0 2006/2007
Gol G4Acervo Quatro Rodas/
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No Volkswagen Gol City 1.0 2006/2007, a diferença entre o valor de mercado e o custo de algumas peças aparece de forma mais discreta, mas nem por isso menos relevante. Avaliado em R$ 19.021 pela Fipe, o modelo segue comum nas ruas justamente pela fama de robustez e manutenção simples — uma percepção que nem sempre se confirma quando o carro precisa de reparos mais específicos.
Em situações de batida frontal, o impacto no bolso pode ser imediato. Só o capô custa R$ 4.714, o equivalente a quase um quarto do valor total do carro. Se o dano atingir o sistema de escape, a conta cresce rapidamente: o tubo dianteiro e o tubo intermediário somam mais de R$ 7.700, valor que, isoladamente, já representa uma parcela expressiva do preço do veículo.
Mesmo fora do contexto de colisão, o Gol expõe o peso das peças sujeitas ao desgaste natural. Alternador, motor de partida e virabrequim aparecem com preços próximos ou acima dos R$ 4.000 cada, mostrando que falhas mecânicas relativamente comuns em carros com mais de 15 anos de uso podem gerar reparos desproporcionais ao valor de mercado.
O caso do motor completo, avaliado em R$ 8.588, é emblemático. Ele corresponde a quase metade do preço do carro, segundo a Fipe, e ajuda a explicar por que muitos proprietários recorrem a alternativas como retífica ou peças paralelas quando enfrentam problemas mais graves no conjunto mecânico.
Fiat Palio Weekend Sport 1.6 1999/2000
Palio Weekend SportDivulgação/Fiat
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No Fiat Palio Weekend Sport 1.6 1999/2000, o descompasso entre valor de mercado e custo de reparo aparece de forma ainda mais evidente. Avaliada em R$ 10.817 pela Tabela Fipe, a perua pode gerar orçamentos que superam facilmente esse valor quando envolvida em uma colisão, mesmo sem atingir diretamente o conjunto mecânico.
Em uma batida frontal, diversos componentes estruturais e de segurança entram na conta. O capô custa R$ 1.677. Os conjuntos ópticos dianteiros, direito e esquerdo, ambos com corretor de orientação do farol, custam R$ 1.042, cada. A eles se somam itens como o radiador, avaliado em R$ 1.385, e o agregado, que sustenta motor e suspensão dianteira, ao custo de R$ 3.153.
No sistema de escape, catalisador e tubo de escape dianteiro somam mais de R$ 3.200 e podem ser danificados mesmo em impactos de menor intensidade.
A Weekend Sport ainda podia ser equipada com airbag para o motorista e este volante específico hoje é precificado em R$ 1.203. Em geral, ele precisa ser substituído após o acionamento do airbag. Somadas, apenas essas peças comuns em uma batida frontal chegam a R$ 16.770,75, valor superior ao preço total do carro segundo a Fipe.
Chevrolet Celta LT 1.0 Flex 2012
Chevrolet Celtadivulgação/Chevrolet
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No Chevrolet Celta LT 1.0 Flex 2012, a diferença entre valor de mercado e custo de reparo aparece quando o carro precisa ir além da manutenção básica. Avaliado em R$ 29.586 pela Tabela Fipe, o hatch pode gerar orçamentos elevados mesmo sem envolvimento em colisões.
O item que mais pesa nesse cenário é o coletor de escapamento com catalisador, avaliado em R$ 17.455,11. Além de ser fundamental para o controle de emissões, trata-se de um componente de alto custo que, quando apresenta falhas, normalmente exige substituição completa, elevando rapidamente o orçamento.
O condensador do sistema de ar-condicionado, responsável pela troca de calor do sistema e posicionado na parte frontal do veículo, custa R$ 2.080. E mesmo componentes relativamente comuns já representam uma fatia importante do valor do carro. O capô custa R$ 2.697, enquanto os conjuntos ópticos dianteiros, direito e esquerdo, saem por R$ 1.131,39 cada.
Honda Civic Sedan EX 1.6 16V automático 1999
Honda CivicCaio Mattos/Honda
Avaliado hoje em R$ 21.302 pela Fipe, o Honda Civic Sedan EX 1.6 16V automático é um carro antigo que ainda têm peças de reposição encontradas nas concessionárias. Mas nem todas custam barato e não é necessária uma batida para descobrir o custo das suas peças.
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Componentes sujeitos ao desgaste natural, como alternador (R$ 5.196), motor de partida (R$ 9.413), bomba da direção hidráulica (R$ 6.807) trabalham constantemente e, com o passar dos anos, podem precisar de substituição se reparos não forem possíveis.
Em uma colisão, o impacto no orçamento tende a ser maior. O agregado dianteiro custa R$ 4.521 e costuma ser trocado em batidas frontais. Se o dano atingir o conjunto mecânico, os valores se aproximam rapidamente do preço do carro. O cabeçote do motor chega a R$ 17.473, enquanto o câmbio automático completo custa R$ 25.080, valor superior ao da própria Fipe do sedã nacional.
Ford Fiesta 1.6 Titanium Powershift 2014
Ford Fiesta TitaniumChristian Castanho/Ford
Em 2014, o Ford Fiesta já havia se tornado nacional e a versão Titanium Powershift com motor 1.6 era a mais cara disponível. Hoje esse carro vale R$ 41.646, de acordo com a Fipe. Mas suas peças de reposição são um tanto caras.
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Em uma batida frontal, capô e faróis dianteiros ultrapassam R$ 6.800. A coluna de direção custa R$ 7.311,73, quase um quinto do valor total do carro. Alternador, bloco do motor e coletor de escapamento também têm valores elevados, e o motor completo custa R$ 14.266.
Câmbio Powershift do Ford FiestaAcervo/Quatro Rodas
Fora do contexto de colisão, o destaque negativo é a caixa de câmbio automática Powershift. Importada, ela é ficou conhecida por problemas recorrentes, inclusive foi alvo de recall que resultou em um aumento da garantia do sistema para 10 anos. No entanto, essa garantia já acabou e um câmbio novo custa R$ 88.783,89 — mais do que o dobro do valor do veículo.
As surpresas nos preços das peças não estão restritas a carros velhos. Mesmo modelos relativamente recentes podem enfrentar uma equação desfavorável entre valor de mercado e custo de peças, especialmente quando envolvem componentes importados ou projetos problemáticos.
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