AutoCidade Editorial

O Brasil ultrapassou a Rússia e virou o maior comprador de carros chineses do mundo

O Brasil ultrapassou a Rússia e virou o maior comprador de carros chineses do mundo

Há um exercício mental que ajuda a entender a velocidade do que aconteceu. Pegue alguém que trabalhava com importação de veículos em 2019 e conte a essa pessoa que, sete anos depois, o Brasil seria o país que mais compra automóveis chineses no planeta. A reação provável seria uma risada educada seguida de uma pergunta sobre qual métrica você está usando.

A métrica é dólar. E os dados da alfândega chinesa, compilados pelo Conselho Empresarial Brasil-China, mostram que entre janeiro e maio de 2026 o Brasil importou US$ 5,2 bilhões em veículos chineses — cerca de R$ 26,7 bilhões. É mais do que a Rússia, que ficou em US$ 5 bilhões, e bastante mais do que a Bélgica, terceira colocada com US$ 3,8 bilhões.

Em 2025, no mesmo período, o Brasil tinha importado US$ 2,1 bilhões e ocupava a sexta posição do ranking mundial. A alta é de 146,9%. Subimos cinco degraus em doze meses.

Não é qualquer carro: é carro com tomada

O detalhe que transforma esse número de curiosidade estatística em fato relevante está na composição. Dos US$ 5,2 bilhões, aproximadamente US$ 4,5 bilhões correspondem a veículos eletrificados. Os elétricos puros somaram cerca de US$ 2 bilhões, quatro vezes o valor do ano anterior. Os híbridos plug-in chegaram a US$ 2,79 bilhões, o dobro do registrado em 2025.

Para dimensionar a mudança, vale olhar a série histórica da participação dos eletrificados nas importações brasileiras de veículos chineses: eram 33% em 2021 e chegaram a 87% em 2025. Em quatro anos, o carro chinês no Brasil deixou de ser majoritariamente um carro a combustão barato e passou a ser, quase exclusivamente, um carro com bateria.

Isso não é detalhe de planilha. É uma mudança de identidade de produto. A marca chinesa que entrou no Brasil na década de 2010 vendia a proposta "mesma coisa, mais barato" — e sofria com a percepção de qualidade que essa proposta carrega. A marca chinesa de 2026 vende outra coisa: tecnologia que a concorrência tradicional não oferece na mesma faixa de preço. É um argumento comercial completamente diferente, e muito mais difícil de rebater.

Os emplacamentos confirmam. No primeiro semestre de 2026 foram registrados 215.023 veículos eletrificados no Brasil, segundo a ABVE — alta de 125% sobre os 95.493 do mesmo período de 2025. No mesmo intervalo, o mercado automotivo geral cresceu 19,4%. Ou seja: o segmento eletrificado cresceu mais de seis vezes mais rápido que o mercado como um todo.

A corrida contra o relógio tributário

Aqui entra a parte que qualquer análise honesta precisa incluir, sob pena de ler o gráfico errado.

Em 1º de julho de 2026, entrou em vigor um novo patamar de imposto de importação para veículos eletrificados. Os elétricos puros subiram de 25% para 35%. Os híbridos plug-in, de 28% para 35%. Os híbridos convencionais, de 30% para 35%. Todo mundo convergiu para o mesmo teto, encerrando o cronograma de escalonamento gradual que vinha sendo aplicado desde 2024.

Isso significa que os cinco meses medidos pela alfândega chinesa — janeiro a maio — são exatamente os meses anteriores à alta. E que uma parte considerável desse volume é o que o setor chama, sem cerimônia, de antecipação de embarque: montadoras empurrando o máximo de unidades possível pela alfândega antes da mudança de alíquota.

Os números de abril e maio reforçam a leitura. Só nesses dois meses, os eletrificados responderam por US$ 2,7 bilhões das importações. Mais da metade do total do período de cinco meses concentrada nos dois meses finais, bem em cima do prazo. Não é coincidência; é logística de calendário fiscal.

O que não significa que o fenômeno seja artificial. Antecipação de embarque explica a intensidade do pico, não a existência da demanda. Ninguém traz meio milhão de dólares em carro para o porto de Itajaí sem ter comprador do outro lado. O que a tarifa fez foi comprimir dois anos de venda numa janela curta, e o segundo semestre vai revelar quanto disso era demanda real e quanto era estoque adiantado.

O que muda quando o imposto se iguala

A partir de julho, o jogo passa a ser outro, e ele favorece quem produz aqui.

A lógica da alíquota escalonada sempre foi explícita: dar tempo para que as marcas chinesas saíssem do modelo de importação pura e montassem fábrica no Brasil. BYD em Camaçari, GWM em Iracemápolis, Chery com a Caoa — o objetivo declarado da política era converter importador em fabricante, usando o imposto como cronômetro.

Com 35% valendo para todo mundo, o carro importado da China perde parte relevante da vantagem de preço que sustentou o crescimento recente. Quem já tem linha de montagem nacional passa a ter uma margem confortável de manobra. Quem ainda depende de contêiner precisa decidir se repassa o custo, se corta margem ou se acelera a nacionalização.

Essa é a razão pela qual anúncios de conteúdo local viraram rotina no setor — metas de percentual de peças nacionais, produção de baterias em solo brasileiro, contratos com fornecedores locais. Não é gentileza com a indústria nacional. É aritmética de alíquota.

O outro lado da liderança

Ser o maior comprador de carros chineses do mundo é uma manchete de duas leituras, e vale segurar as duas ao mesmo tempo.

A leitura otimista: o consumidor brasileiro conseguiu acesso a tecnologia embarcada, autonomia elétrica e nível de equipamento que, cinco anos atrás, exigiriam o dobro do orçamento. A concorrência chinesa forçou marcas estabelecidas a rever tabelas de preço, a incluir itens que antes eram opcionais caros e a lançar híbridos que estavam engavetados. Quem comprou carro em 2026 comprou mais carro por real do que quem comprou em 2021.

A leitura preocupada: importação em massa é receita conhecida de déficit comercial setorial e de esvaziamento de cadeia produtiva. Cada carro que chega pronto é um conjunto de empregos de autopeças que não foi criado aqui. O setor de componentes brasileiro, que já vinha apertado, sente essa conta primeiro — e o efeito só aparece nas estatísticas de emprego alguns trimestres depois.

Há ainda uma questão de rede que é conversa direta com o dia a dia do motorista: velocidade de importação e velocidade de estruturação de assistência técnica não andam no mesmo passo. Vender é rápido; montar rede de oficina credenciada, treinar mecânico para trabalhar com sistema de alta tensão e distribuir peça de reposição no interior do país é lento. Quem comprou eletrificado em cidade média já descobriu isso na prática.

O que observar daqui para frente

O indicador que vale acompanhar não é mais o volume de importação — esse já cumpriu seu papel de manchete. É a proporção entre carro importado e carro montado aqui dentro do total de eletrificados emplacados.

Se essa proporção migrar consistentemente para o lado nacional nos próximos dois anos, a política tarifária terá funcionado como planejado: usou a demanda para atrair fábrica. Se as importações apenas encolherem sem que a produção local ocupe o espaço, o resultado terá sido encarecer o carro elétrico para o consumidor brasileiro sem contrapartida industrial.

Também vale observar a segunda metade de 2026 com atenção especial. Se os números de importação despencarem em julho e agosto, confirma-se a tese da antecipação. Se caírem pouco, significa que a demanda é robusta o suficiente para absorver dez pontos percentuais de imposto — e aí a conversa sobre competitividade da indústria instalada no Brasil fica bem mais desconfortável.

Por ora, fica o registro histórico. Um país que passou décadas sendo mercado periférico para as grandes montadoras globais tornou-se, em 2026, o principal destino mundial de uma indústria automotiva que há vinte anos praticamente não exportava. A liderança veio rápido, veio movida a bateria e veio com prazo de validade escrito na tabela de alíquotas. Resta saber o que construímos enquanto ela durou.

Leia a materia completa na fonte original:

Ver no AutoCidade Editorial

Compartilhar