AutoCidade Editorial

A Volkswagen vai matar metade dos próprios modelos — e a lista de vítimas já começou

A Volkswagen vai matar metade dos próprios modelos — e a lista de vítimas já começou

Durante décadas, a estratégia do Grupo Volkswagen foi uma só: ter um carro para cada pessoa do planeta. Sedã compacto, sedã médio, sedã grande, o mesmo trio em versão perua, o mesmo trio em versão SUV, tudo isso multiplicado por oito marcas, cada uma com dezenas de combinações de motor, acabamento e pacote opcional. O resultado foi um império de cerca de 150 linhas de modelos — e uma complexidade que, em tempos de vacas gordas, parecia sofisticação. Em tempos de vacas magras, virou peso morto.

As vacas emagreceram rápido. No segundo trimestre de 2026, as entregas globais do grupo caíram 8,6% — o pior resultado em quatro anos. Na China, mercado que por três décadas foi o cofre da empresa, o tombo chegou a 36,6%, engolido pela concorrência local de BYD, Geely e companhia. As ações acumulam perda superior a 30% no ano. Diante desse quadro, o CEO Oliver Blume apresentou ao conselho um pacote de 12 iniciativas cujo item mais dramático cabe numa frase: eliminar até metade dos modelos do grupo.

O obituário já tem nomes

A lista de baixas confirmadas é um passeio pela nostalgia recente. Na marca Volkswagen, morrem o Touareg — o SUV que um dia dividiu plataforma com Porsche Cayenne e simbolizou a ambição premium de Wolfsburg —, a minivan Touran e o T-Roc Cabriolet, cuja linha se encerra em 2027 sem que ninguém consiga explicar direito por que ele existiu.

Na Audi, o corte é mais doloroso para o entusiasta: além do compacto A1 e do SUV Q2, saem de linha o TT, ícone de design que definiu os anos 2000, e o R8, o supercarro de motor V10 que emprestava DNA de Lamborghini. Na Porsche, despedem-se os 718 Boxster e Cayman a combustão — os esportivos de entrada que ensinaram uma geração a fazer curva. Sobra a promessa de sucessores elétricos e a suspeita, nada infundada, de que parte dessa alma não sobrevive à conversão.

E o corte não para nos modelos: das linhas sobreviventes, o grupo quer eliminar 75% das configurações. Menos motores, menos pacotes, menos aquela lista de opcionais em que o comprador alemão médio passava três fins de semana montando o carro ideal. A era do cardápio infinito acabou; agora é menu executivo.

A conta que não fecha

Por trás da faca está uma aritmética simples e brutal. A capacidade instalada do grupo foi desenhada para um mundo que comprava 12 milhões de Volkswagens por ano. Esse mundo não existe mais: a meta agora é calibrar a estrutura para 9 milhões de unidades anuais. A diferença — três milhões de carros que não serão produzidos — corresponde a fábricas inteiras, e é aí que a reestruturação deixa de ser assunto de planilha e vira drama social.

Os acordos já firmados preveem cerca de 50 mil demissões até 2030, e projeções internas admitem que o número pode dobrar: até 100 mil postos de trabalho eliminados. Quatro fábricas alemãs estão na berlinda — Hannover, Zwickau, Emden e a unidade da Audi em Neckarsulm. Para a Alemanha, onde a Volkswagen é menos uma empresa e mais uma instituição nacional (o estado da Baixa Saxônia é acionista, com assento no conselho), cada uma dessas plantas é um vespeiro político.

E o vespeiro já zumbe: Blume apresentou o pacote ao conselho sob protestos de trabalhadores na porta, com o sindicato IG Metall e a Baixa Saxônia — que juntos têm poder real de veto na estrutura societária controlada pelas famílias Porsche e Piëch — resistindo a qualquer corte de empregos. É o nó volkswagiano clássico: a mesma estrutura de governança que protegeu a empresa de aventuras financeiras agora dificulta a cirurgia que ela mesma diagnosticou como necessária.

O que sobra quando se corta a metade

A lógica de Blume é a de todo turnaround: concentrar recursos nos segmentos de maior margem, simplificar a produção, parar de vender carros que dão prejuízo para não perder participação de mercado. Faz sentido no Excel. O risco mora no longo prazo: portfólio enxuto significa menos portas de entrada para a marca, e cliente que não encontra o carro que quer na concessionária Volkswagen não deixa de comprar carro — compra do concorrente. De preferência, um concorrente chinês que está fazendo o caminho inverso e lançando um modelo novo a cada estação do ano.

Para o Brasil, os efeitos imediatos são limitados — os modelos cortados até agora são europeus, e a operação brasileira, puxada por Polo, T-Cross e Tera, vive um de seus melhores momentos. Mas a régua de racionalização é global, e numa empresa que promete rever tudo, "até agora" é a expressão-chave.

Há algo de simbólico em ver a Volkswagen — literalmente, "o carro do povo" — abandonar a ambição de ser tudo para todos. O império dos 150 modelos foi construído sobre a certeza de que escala resolve qualquer problema. A década de 2020 ensinou o contrário: escala sem margem é só uma forma cara de ficar grande. Agora Wolfsburg testa a tese oposta, a de que menos pode ser mais. Os próximos balanços dirão se é sabedoria ou apenas o nome elegante que se dá ao encolhimento.

Leia a materia completa na fonte original:

Ver no AutoCidade Editorial

Compartilhar