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O escândalo da Shineray: motos que poluem até 30 vezes mais que o limite legal

O escândalo da Shineray: motos que poluem até 30 vezes mais que o limite legal

Existe uma regra não escrita no mundo automotivo: escândalo de emissões é coisa de gigante. Foi a Volkswagen com o Dieselgate, foi a Fiat Chrysler nos Estados Unidos, foi a Mercedes na Europa. Marcas colossais, engenharia sofisticada, softwares que detectavam o teste e trapaceavam com elegância quase admirável. O caso que estourou agora no Brasil é diferente — e, de certa forma, mais cru. Não há software esperto nem manipulação engenhosa. Segundo os testes, simplesmente faltavam peças.

A Shineray, fabricante chinesa que se tornou uma das marcas de motos que mais crescem no país graças a preços agressivos, foi acusada formalmente de vender motocicletas que emitem poluentes em níveis de até 30 vezes o limite legal. A denúncia partiu da Abraciclo, associação que reúne as fabricantes instaladas no Polo Industrial de Manaus — Honda, Yamaha e companhia, responsáveis por cerca de 95% do mercado brasileiro de duas rodas.

E antes que alguém grite "é só briga de concorrente", vale olhar os números com calma. Porque eles são difíceis de explicar.

63 reprovações em 64 testes

Depois da denúncia inicial da Abraciclo à Senacon, no fim de 2025, e da abertura do processo administrativo em janeiro deste ano, a apuração ganhou um capítulo decisivo: uma nova rodada de testes independentes, realizada no laboratório da Marelli — fornecedora global de sistemas automotivos, sem vínculo com nenhuma das partes.

O resultado foi devastador. Das 64 medições realizadas em quatro modelos da marca — Rio 125 EFI, SHI 175 EFI, JEF 150S e JEF 150S EFI —, 63 reprovaram. Houve estouro nos limites de monóxido de carbono, hidrocarbonetos, óxidos de nitrogênio e até nos níveis de ruído. O caso mais extremo: uma medição de monóxido de carbono registrou 87.000 ppm a 2.000 rpm, o equivalente a 29 vezes o teto permitido pela legislação brasileira.

Para efeito de comparação: no Dieselgate, os motores da Volkswagen emitiam até 40 vezes mais óxidos de nitrogênio — mas apenas quando rodavam fora do laboratório, porque o software mascarava o teste. Aqui, segundo a apuração, as motos reprovam no próprio teste, sem esconderijo possível.

A explicação apontada pelos exames é quase prosaica. Nas motos avaliadas, faltavam componentes básicos de controle de emissões: catalisadores, cânisters (que retêm vapores de combustível) e sistemas fechados de ventilação do cárter. Não é trapaça de engenheiro; é ausência de peça. Como se um restaurante fosse autuado não por mascarar a validade dos alimentos, mas por não ter geladeira.

O que diz cada lado

A Abraciclo pede recall, suspensão das vendas e multa. O argumento da entidade é direto: "O mercado precisa ser igual para todos. Todas as empresas precisam seguir as mesmas regras." Por trás da frase protocolar há uma questão econômica real — catalisador, cânister e injeção calibrada custam dinheiro. Se um concorrente vende sem esses itens, vende mais barato. E preço baixo, no mercado de motos de entrada, é praticamente o único argumento que importa.

A Shineray, por sua vez, afirma que o caso corre sob segredo de justiça e que "apresentou todas as manifestações cabíveis, respeitando integralmente os trâmites institucionais". Em fases anteriores do processo, a empresa chegou a contestar a imparcialidade dos testes, alegando que haviam sido feitos em laboratórios de concorrentes — argumento que perdeu força quando a Marelli, terceira parte sem lado na disputa, repetiu os exames e confirmou os resultados.

Há ainda um detalhe que complica a defesa: o Ibama confirmou que a Shineray nunca entregou os Relatórios de Valores de Emissão da Produção (RVEP), documento obrigatório que permite ao órgão acompanhar se as motos que saem da linha de montagem continuam dentro dos limites homologados. Ou seja, mesmo antes dos testes da Marelli, o mecanismo oficial de acompanhamento simplesmente não estava sendo alimentado.

O que acontece agora — e por que isso importa para quem nunca vai comprar uma Shineray

A bola está com a Senacon, que avalia sanções administrativas e o encaminhamento do caso para Ibama, Inmetro e Cade — este último porque vender produto fora da regulamentação mais barato que os concorrentes regulares pode configurar concorrência desleal. No limite, o desfecho pode incluir desde multas até recall em massa e suspensão de comercialização dos modelos citados.

Para o consumidor, a lição é menos sobre uma marca e mais sobre um mecanismo. O preço de uma moto — ou de um carro — embute custos invisíveis: o catalisador que ninguém vê, o cânister que ninguém sabe que existe, a calibração que ninguém percebe. Quando um produto custa muito menos que todos os equivalentes, essa diferença saiu de algum lugar. Às vezes é eficiência produtiva legítima. Às vezes, segundo os laboratórios, é uma peça que deveria estar lá e não está.

E há o aspecto coletivo, que nenhuma planilha de custo-benefício individual captura: emissão veicular é problema de saúde pública. Uma moto que solta 29 vezes mais monóxido de carbono não prejudica o dono — prejudica quem está atrás dela no trânsito, todos os dias, respirando o resultado da economia alheia.

O caso Shineray ainda vai render capítulos. Mas já deixou uma constatação desconfortável: no país das motos — foram mais de 1,9 milhão vendidas no ano passado —, descobrir o que realmente sai do escapamento delas dependeu de uma briga entre concorrentes. A fiscalização de ofício, aquela que deveria acontecer antes da denúncia, segue sendo o item que falta no catálogo.

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