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A Nissan ressuscitou uma minivan de luxo com 22 alto-falantes e poltronas de gravidade zero — e juntou 6 mil pedidos antes mesmo de chegar às lojas

A Nissan ressuscitou uma minivan de luxo com 22 alto-falantes e poltronas de gravidade zero — e juntou 6 mil pedidos antes mesmo de chegar às lojas

Existe um tipo de carro que o Brasil quase não conhece, mas que no Japão é objeto de desejo tão sério quanto um esportivo é por aqui: a minivan de luxo. Não a van de transportar carga ou levar time de futebol, mas um salão executivo sobre rodas, onde o dono não dirige — o dono é dirigido, reclinado numa poltrona macia enquanto o mundo passa pela janela. É nesse mundo particular que a Nissan acaba de reabrir uma velha porta, ressuscitando a Elgrand depois de anos de abandono.

E o mercado, ao que parece, sentia falta dela. Antes mesmo de a nova geração chegar às concessionárias, a Elgrand já tinha acumulado mais de 6 mil pedidos desde maio, sendo mais de 5 mil deles de clientes de varejo — gente comum comprando com o próprio bolso, não frota corporativa fechando lote. Para um carro que a maioria dava por esquecido, é um recado e tanto: havia uma fila esperando a porta reabrir.

Um motor a gasolina que só gera, e motores elétricos que só andam

O coração da nova Elgrand é a estrela da tecnologia da Nissan, o sistema e-Power, agora em sua terceira geração. A ideia é engenhosamente contraintuitiva: existe um motor 1.5 turbo a gasolina embaixo do capô, mas ele não move as rodas. Nunca. Sua única função é gerar eletricidade, como um pequeno gerador silencioso, enquanto quem efetivamente empurra o carro são motores elétricos. Na prática, você dirige um elétrico — com aquela resposta instantânea e o silêncio de biblioteca — sem nunca precisar procurar uma tomada.

Para completar, a Elgrand estreia o sistema e-4orce de tração integral, que distribui força entre os eixos para reduzir a rolagem da carroceria alta e manter a estabilidade nas curvas — detalhe nada trivial num veículo cujo propósito é embalar passageiros como se estivessem numa rede. O torque passa dos 51 kgfm, número que a Nissan ainda não fechou junto com a potência total, mas que já garante empurrão de sobra para mover o salão com desenvoltura.

A cabine que transforma o trânsito em spa

Se por fora a Elgrand impressiona com a grade dianteira ousada e os faróis diurnos futuristas herdados do conceito Hyper Tourer de 2023, é por dentro que ela joga para ganhar. A segunda fileira — o lugar mais nobre da casa — recebe poltronas capitão batizadas de "Zero Gravity", com apoio para as pernas e encosto de dupla reclinação. Traduzindo o marketing: você pode esticar as pernas e, ao mesmo tempo, elevar a parte superior do corpo para assistir confortavelmente às telas traseiras, numa posição que a Nissan promete imitar a sensação de flutuar.

A trilha sonora dessa experiência sai de um sistema Bose com nada menos que 22 alto-falantes — um número que muita sala de cinema de bairro invejaria. Some a isso duas telas de 14,3 polegadas, acabamento em madeira, iluminação ambiente com 64 cores para combinar com o humor do dia e uma suspensão inteligente chamada Intelligent Dynamic Suspension, capaz de ler o piso adiante e ajustar os amortecedores em tempo real, alisando o buraco antes mesmo de a roda chegar nele. Não é um carro. É uma sala VIP que anda.

O elefante na garagem: a Toyota Alphard

Toda essa sofisticação, porém, esbarra num obstáculo do tamanho de uma rival. No segmento de minivans de luxo japonesas, existe uma rainha absoluta, e ela se chama Toyota Alphard. Os números explicam o tamanho do desafio de forma quase cruel: no último ano fiscal, a geração anterior da Elgrand vendeu apenas 1.163 unidades no Japão. A Alphard, no mesmo período, emplacou 81.357. É uma diferença de mais de setenta vezes — o equivalente a disputar um mercado onde o concorrente já vendeu setenta carros antes de você entregar o primeiro.

É por isso que aqueles 6 mil pedidos antecipados carregam tanto simbolismo. Eles não vão, sozinhos, destronar a Alphard — mas mostram que a Nissan finalmente resolveu levar a briga a sério, depois de anos deixando a Elgrand definhar sem renovação enquanto a Toyota reinava sozinha. Uma minivan não se atualiza de verdade por capricho; se atualiza porque a marca decidiu voltar para o ringue. E a Nissan, claramente, decidiu.

Um luxo que, por enquanto, não cruza o Pacífico

Para o comprador japonês, a nova Elgrand parte de 6,87 milhões de ienes — algo em torno de R$ 216 mil na conversão direta, embora comparações de preço entre mercados sejam sempre um exercício traiçoeiro. A Nissan já sinalizou que pretende vender o modelo em outros países, mas ainda não abriu preços fora do Japão. Uma certeza, porém, ela já deu: os Estados Unidos estão descartados. A marca abandonou o segmento de minivans no mercado americano lá em 2017 e não pretende voltar.

No Brasil, uma minivan de luxo dessas continua sendo criatura de outro ecossistema — cara demais, nichada demais, pensada para uma cultura de mobilidade executiva que por aqui ainda cabe no banco de trás de um sedã grande ou de um SUV topo de linha. Mas há algo de fascinante em observar essa categoria de longe. Ela revela um jeito diferente de pensar o automóvel: não como máquina de dirigir, e sim como espaço de ser transportado com dignidade e conforto de primeira classe.

A Elgrand renascida é, no fundo, uma aposta de que ainda existe gente disposta a pagar caro não pela emoção de guiar, mas pelo privilégio de não precisar guiar. Enquanto o resto da indústria discute autonomia de bateria e cavalos de potência, a Nissan resolveu lembrar que, para uma parcela do público, o luxo definitivo é reclinar a poltrona, ligar os 22 alto-falantes e deixar que o carro — e o motorista — cuidem do resto.

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