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A Honda tinha um carro elétrico nos EUA — que por dentro era um Chevrolet — e ele afundou 88% no dia em que o governo cortou a mesada

A Honda tinha um carro elétrico nos EUA — que por dentro era um Chevrolet — e ele afundou 88% no dia em que o governo cortou a mesada

Imagine que você abre um restaurante e ele vive lotado. Fila na porta, mesas cheias, garçom sem descanso. Aí você descobre que a prefeitura estava pagando metade da conta de cada cliente — e no dia em que o incentivo acaba, o salão esvazia como se alguém tivesse gritado "fogo". Não era o seu tempero que enchia as mesas. Era o desconto. Foi mais ou menos isso que a Honda descobriu sobre o Prologue, seu SUV elétrico nos Estados Unidos.

A montadora japonesa acaba de confirmar que vai tirar o Prologue de linha no mercado americano. E o motivo é um daqueles que deveriam estar emoldurados na parede de toda escola de negócios: no momento em que o governo federal americano extinguiu o crédito fiscal para carros elétricos, as vendas do modelo não caíram — elas despencaram de um penhasco. Em dezembro de 2025, os emplacamentos afundaram 88,6% na comparação anual, restando apenas 932 unidades. Um número que, para um carro que tinha ambição de protagonista, é praticamente uma certidão de óbito.

O elétrico da Honda que, por baixo do capô, era General Motors

Aqui a história ganha um tempero que poucos consumidores conheciam. O Prologue nunca foi um Honda de verdade no sentido mais profundo da palavra. Ele nasceu de uma parceria com a General Motors e foi construído sobre a plataforma Ultium — a mesma base que sustenta o Chevrolet Blazer EV e o Cadillac Lyriq. Na prática, o Prologue e seu primo de luxo, o Acura ZDX, eram versões reestilizadas de carros da GM com emblema japonês na frente. Um Chevrolet vestido de Honda, para colocar sem rodeios.

A própria Honda nunca escondeu que isso era um arranjo temporário. A empresa admitiu que o Prologue era "uma solução de transição" enquanto desenvolvia sua própria tecnologia elétrica. Ou seja: era um carro de aluguel de plataforma, um jeito de marcar presença no segmento sem ter ainda a arquitetura própria pronta. O problema de morar de aluguel é que, quando a conta aperta, você não tem muito com que se apegar. Sem tecnologia proprietária e sem margem confortável, bastou o incentivo evaporar para o negócio deixar de fazer sentido.

A montanha-russa de um número que só subia por causa do desconto

Vale a pena olhar a trajetória de vendas, porque ela conta a história inteira sem precisar de legenda. Em 2025, o Prologue cresceu 19,1%, chegando a 39.194 unidades — um resultado que, no papel, parecia um sucesso e enchia apresentações de slide. Só que boa parte desse fôlego vinha da corrida para aproveitar o crédito fiscal antes que ele acabasse. Era gente comprando com pressa para pegar o desconto na janela, não porque tinha se apaixonado pelo carro.

Quando a janela fechou, a realidade apareceu nua. Dezembro trouxe os tais 88,6% de queda. E o primeiro semestre de 2026 não trouxe consolo: recuo de 48,5%, com o modelo patinando na casa das 1.400 unidades por mês. O Prologue virou o segundo veículo menos vendido da Honda nos Estados Unidos — superado, em vergonha, apenas pelo Prelude. Um SUV elétrico que deveria apontar o futuro terminou sendo ultrapassado em vendas por todos os modelos da Acura ainda em produção. Quando o subsídio some, o rei fica sem roupa.

Não é só o Prologue: é uma poda inteira

O corte do Prologue não é um evento solto. Ele faz parte de uma tesourada maior que a Honda vem dando na sua estratégia de eletrificação americana. O Acura ZDX, aquele primo de luxo, já tinha sido cancelado em 2025. Para 2026, a lista de baixas engrossou: a Série 0 — o sedã e o SUV que seriam a nova cara elétrica da marca —, o Acura RSX e até a Sony Honda Mobility, a joint venture responsável pela marca Afeela, entraram no cemitério de projetos.

É um recuo e tanto para uma empresa que, poucos anos atrás, falava em eletrificação com a confiança de quem já tinha o mapa do tesouro. Mas seria injusto ler isso como uma rendição total. A Honda faz questão de dizer que não abandonou a eletrificação de vez — ela mantém em desenvolvimento a própria arquitetura de elétricos para os próximos anos. O que ela está fazendo é abandonar a estratégia do carro emprestado e do mercado dopado por incentivo. É a diferença entre desistir do jogo e sair de campo para trocar de chuteira.

A lição que atravessa o oceano e chega até aqui

Para o consumidor brasileiro, essa história americana pode parecer distante, coisa de outro mercado, outro clima, outra política. Mas ela carrega um recado que vale para qualquer lugar onde o carro elétrico ainda engatinha com a ajuda do Estado. Incentivo fiscal é uma muleta poderosa e, muitas vezes, necessária para um mercado dar os primeiros passos. O perigo mora em confundir a muleta com a perna. Quando as vendas de um produto só existem por causa do desconto, o que se está construindo não é um mercado — é uma bolha com prazo de validade colado na tampa.

No Brasil, onde programas de incentivo já empurraram dezenas de milhares de unidades para as ruas neste ano, o caso Prologue funciona como um espelho útil. Ele não diz que incentivo é ruim; diz que carro bom precisa se sustentar quando o incentivo for embora. O elétrico que só vende com a mesada do governo é um convidado que fica na festa enquanto tem bebida grátis e desaparece quando o bar começa a cobrar.

A Honda vai voltar ao segmento elétrico americano — dessa vez, promete, com plataforma própria e sem depender de emblema disfarçado ou de crédito fiscal para fechar a conta. O Prologue, enquanto isso, entra para a galeria dos carros que pareciam um sucesso até que alguém desligou a torneira do subsídio e revelou que o salão estava cheio pelo motivo errado. Foi bom enquanto durou. Só não era, exatamente, sobre o carro.

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