A moto a vapor mais rápida do mundo vai de 0 a 100 km/h em 0,4 segundo — e foi construída por um engenheiro de 62 anos numa garagem inglesa
Quando você imagina "a coisa mais rápida do mundo", a mente vai para foguetes da NASA, jatos militares, talvez algum hipercarro elétrico que custa o PIB de uma cidade pequena. Provavelmente não vai para uma moto movida a vapor — a mesma tecnologia que tocava locomotivas no século XIX, a mesma que aposentamos junto com o telégrafo e os bigodes encerados. E, no entanto, é exatamente isso que um senhor de 62 anos do interior da Inglaterra construiu na garagem: uma moto a vapor que acelera de 0 a 100 km/h em 0,4 segundo.
Leia de novo. Zero ponto quatro segundo. Um piscar de olhos demora mais do que isso. O tempo que você levou para ler "0 a 100" já teria sido suficiente para a moto fazer o percurso duas vezes e sobrar.
O homem, a máquina e a obsessão
O criador chama-se Graham Sykes, tem 62 anos, é engenheiro de precisão e mora em North Yorkshire. A moto se chama "Force of Nature" — Força da Natureza — e está na sua quinta geração, o que dá uma pista do nível de teimosia envolvido. Ninguém constrói cinco versões de uma moto a vapor que cospe água a 40 litros por segundo por acidente. Isso é vocação, ou talvez uma forma muito sofisticada de não querer fazer outra coisa da vida.
O funcionamento é uma aula de física aplicada com um toque de loucura controlada. Um pequeno queimador de querosene — ou óleo vegetal — aquece 120 litros de água deionizada dentro de um vaso de pressão. A água chega a 250 °C sob pressão de 580 psi. Quando o sistema libera, esse vapor superaquecido é expelido por bocais de Laval, os mesmos usados em foguetes, a aproximadamente 1,1 vez a velocidade do som. O empuxo gerado por essa explosão controlada de vapor empurra a moto para frente com violência.
Não há motor no sentido tradicional. Não há pistões, virabrequim, câmbio. Há água, calor, pressão e um princípio tão antigo quanto a Revolução Industrial: o vapor que escapa empurra na direção oposta. É a terceira lei de Newton aplicada com uma garrafa térmica do tamanho de um barril.
6,8 G: a força que aposenta pilotos de caça
Os números de desempenho beiram o absurdo. A aceleração submete Sykes a 6,8 G — uma força comparável à que pilotos de caça militares enfrentam em manobras extremas, e suficiente para fazer um corpo despreparado desmaiar. Imagine ser empurrado para trás com quase sete vezes o próprio peso, de repente, agarrado a uma moto que basicamente é uma bomba de vapor com guidão.
O quarto de milha — a distância clássica de arrancada — é vencido em 5,5 segundos. A velocidade máxima registrada chegou a 310 km/h. E aqui está o detalhe mais surreal: toda essa fúria dura cerca de 2,9 segundos. É o tempo de propulsão antes de a pressão se esgotar. A moto vive sua vida inteira de glória em menos tempo do que leva um anúncio de rádio.
Durante esses poucos segundos, ela expele cerca de 40 litros de água por segundo. A reserva de 120 litros, portanto, evapora — no sentido mais literal possível — em pouquíssimo tempo. É um motor que não tem economia, autonomia ou qualquer pretensão de durar. Tem apenas um propósito: ser absurdamente rápido por um instante, e ponto final.
Segundo lugar com honra (e um francês teimoso na frente)
Apesar de toda essa fúria, a "Force of Nature" não detém o recorde absoluto do quarto de milha entre motos. Ela é a segunda mais rápida da história nessa distância. O primeiro lugar pertence ao francês Eric Teboul, com uma moto-foguete movida a peróxido de hidrogênio que cravou impressionantes 4,976 segundos em setembro de 2022. A moto de Sykes, porém, detém o recorde de moto mais rápida no oitavo de milha — a metade da distância —, onde sua aceleração brutal nos primeiros instantes faz toda a diferença.
É uma rivalidade encantadora, à sua maneira. De um lado, um francês com peróxido de hidrogênio, combustível de foguete. Do outro, um inglês com vapor de água, a tecnologia das locomotivas. Dois caminhos completamente diferentes para responder a mesma pergunta infantil e eterna: o quão rápido dá para ir? A resposta de Sykes é que dá para ir muito rápido até com água fervendo, desde que você tenha paciência de engenheiro e desprezo saudável pela própria integridade física.
O futuro de uma tecnologia do passado
O espetáculo aconteceu no circuito de Santa Pod Raceway, no Reino Unido, templo das arrancadas britânicas. E Sykes, longe de se dar por satisfeito, já mira a próxima geração. Seu objetivo é reduzir a turbulência e a cavitação — bolhas de vapor que atrapalham o fluxo — para estender o tempo de propulsão e cortar 0,6 segundo do quarto de milha. A meta é furar a barreira dos 5 segundos e, quem sabe, encarar de igual para igual a moto-foguete francesa.
Há algo de profundamente humano nessa busca. Sykes não está construindo nada útil. A "Force of Nature" não vai revolucionar o transporte, não vai reduzir emissões, não vai virar produto. Ela existe pela mesma razão que alguém escala uma montanha ou resolve um cubo mágico de olhos vendados: porque é difícil, porque é bonito de ver funcionar e porque provar que é possível já é, em si, a recompensa.
Num mundo automotivo dominado por baterias de lítio, software de assistência e debates sobre autonomia, é quase reconfortante saber que existe um engenheiro inglês de 62 anos ferventando água numa garagem para fazer a coisa mais inútil e magnífica possível: ir de 0 a 100 km/h mais rápido do que você consegue dizer "vapor". A indústria pode olhar para frente o quanto quiser. Sempre haverá alguém olhando para o século XIX e perguntando: e se eu fizer isso, mas absurdamente rápido?
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