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BYD no Bahia, GAC no Flamengo, Leapmotor no Palmeiras: as montadoras chinesas descobriram o futebol brasileiro

Se você acompanha futebol brasileiro — e, neste país, não acompanhar é quase um ato de rebeldia —, deve ter notado algo curioso nos uniformes dos times na temporada 2026. Ali, onde antes ficavam logos de bancos, cervejarias e casas de apostas, começaram a aparecer nomes que soam como marcas de eletrônicos: BYD, GAC, Leapmotor. Não são fabricantes de TV. São montadoras de carros. Chinesas. E elas estão jogando um campeonato que vai muito além dos gramados.

A GAC foi a mais recente a entrar em campo, anunciando nesta semana o patrocínio ao Flamengo — o clube com a maior torcida do Brasil, estimada em 40 milhões de pessoas. A marca, que acaba de desembarcar no país com SUVs e sedãs, vai estampar seu logo nos shorts e uniformes de treino do Rubro-Negro. Antes dela, a BYD já tinha firmado parceria com o Bahia, enquanto a Leapmotor — que chegou ao Brasil pelas mãos da Stellantis — fechou com o Palmeiras.

Três marcas. Três clubes gigantes. Três regiões diferentes do país. Isso não é coincidência. É um plano.

O manual chinês de conquista de mercado

Para entender o que as montadoras chinesas estão fazendo no futebol brasileiro, é preciso entender como elas pensam expansão de mercado. Diferentemente das montadoras tradicionais — que construíram suas marcas ao longo de décadas, com concessionárias, propaganda na TV e o boca a boca dos proprietários —, as chinesas estão operando em modo acelerado. Elas precisam, em poucos anos, construir uma reputação que Toyota, Volkswagen e Chevrolet levaram meio século para consolidar.

E qual é o atalho mais eficiente para a mente e o coração do brasileiro? O futebol. É matemática simples: o Brasileirão tem audiência média superior a 10 milhões de telespectadores por rodada. Um jogo do Flamengo no Maracanã é transmitido para dezenas de países. O uniforme de um clube grande é visto mais vezes por semana do que qualquer outdoor ou comercial de TV. E o melhor: a associação emocional é automática. Se o seu time veste a marca, ela já começa com crédito positivo no seu subconsciente.

As casas de apostas, que dominaram os uniformes nos últimos anos, provaram que o modelo funciona. A Betano, a Pixbet e a Vai de Bet passaram de desconhecidas a nomes familiares em menos de duas temporadas. As montadoras chinesas observaram, aprenderam e agora estão replicando a estratégia — com uma vantagem: vendem um produto tangível, não uma promessa de lucro fácil.

Cada clube, uma estratégia

A escolha dos clubes não é aleatória. A BYD ficou com o Bahia — e, por extensão, com o Nordeste, região onde o crescimento de vendas de carros novos é o mais acelerado do país. O Nordeste também é o maior polo de energia solar e eólica do Brasil, o que faz da região um terreno fértil para a mensagem de sustentabilidade que a BYD, maior fabricante mundial de veículos elétricos, quer transmitir.

A GAC escolheu o Flamengo, o que é a jogada mais agressiva. Com a maior torcida nacional e presença em todos os estados, o Flamengo dá à GAC uma visibilidade instantânea e massiva. Para uma marca que acabou de chegar ao Brasil — com centros de distribuição, rede de concessionárias já montada e até anúncio de fábrica local —, associar-se ao Flamengo é como colocar um outdoor em cada esquina do país, tudo de uma vez.

A Leapmotor, que veio via Stellantis (o grupo que controla Fiat, Jeep e Peugeot no Brasil), pegou o Palmeiras. O alviverde paulista tem uma torcida concentrada no estado mais rico e com maior frota de veículos do país. São Paulo é também o mercado mais competitivo e onde a decisão de compra é mais racional — exatamente o perfil de consumidor que a Leapmotor, com seus elétricos de preço agressivo, quer atingir.

O que as marcas tradicionais estão achando disso

Se você fosse diretor de marketing da Volkswagen, da Chevrolet ou da Fiat no Brasil, estaria preocupado? A resposta curta é: deveria. Não pelo futebol em si — patrocínio esportivo vai e vem —, mas pelo que ele representa. As montadoras chinesas não estão apenas comprando exposição. Elas estão comprando normalidade.

Há dois anos, a percepção média do consumidor brasileiro sobre carros chineses era de desconfiança. "Será que é seguro?", "Será que tem assistência?", "Será que desvaloriza?". Essas perguntas não desapareceram, mas estão perdendo força. E o futebol acelera esse processo de normalização. Se a BYD patrocina o Bahia, ela não é mais "aquela marca chinesa esquisita" — ela é "a marca que patrocina o Bahia", o que é uma coisa completamente diferente na cabeça do consumidor.

As montadoras tradicionais responderam com o que sabem fazer: qualidade de produto e rede de assistência. A Volkswagen acaba de lançar o novo Tiguan. A Chevrolet está empurrando o Equinox EV. A Fiat reforça a Toro e a Strada. Mas nenhuma delas está no uniforme de um time grande. E talvez devessem repensar isso.

Os riscos do jogo

Nem tudo são flores para as chinesas, claro. O futebol brasileiro é um campo minado de polêmicas, escândalos de arbitragem, brigas de torcida e crises institucionais. Associar sua marca a um clube significa assumir que, em algum momento, seu logo vai aparecer em um contexto negativo — seja uma briga em campo, um rebaixamento inesperado ou uma crise administrativa.

Além disso, o patrocínio esportivo, sozinho, não vende carros. Ele gera awareness — consciência de marca —, mas a conversão em vendas depende de concessionária, test drive, condição de pagamento e, acima de tudo, de um produto que funcione. Se o carro decepcionar, o patrocínio vira piada. "Comprei um carro da marca do Flamengo e ele também só funciona no segundo tempo" — pode apostar que esse tipo de meme apareceria.

Há também a questão regulatória. O governo brasileiro vem aumentando as taxas de importação sobre veículos elétricos chineses, e há pressão da indústria local para impor mais barreiras. Se as condições comerciais mudarem drasticamente, as marcas chinesas podem ter que recuar — e contratos de patrocínio de longo prazo se tornariam um passivo, não um ativo.

O apito final

O que estamos vendo é, possivelmente, a maior ofensiva de marketing automotivo na história recente do Brasil. Três marcas chinesas, em três clubes gigantes, em três regiões estratégicas. É um movimento coordenado, inteligente e, até agora, bem executado. O futebol brasileiro, que já vendeu cerveja, banco, telefonia e apostas, agora vende carros chineses.

Se os carros serão bons o suficiente para manter a relação, só o tempo dirá. Mas uma coisa é certa: da próxima vez que você assistir a um jogo do seu time e vir aquelas letras no uniforme, não vai mais perguntar "que marca é essa?". E esse, exatamente esse, é o gol que as chinesas queriam fazer.

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