Uma picape média a diesel com 4x4 reduzida rodou sem camuflagem em São Paulo — e a marca é JMC
Existe uma hierarquia não escrita nos testes de veículos importados no Brasil. Protótipo com adesivo psicodélico de camuflagem significa "estamos avaliando". Protótipo com camuflagem parcial significa "provavelmente vem". E protótipo rodando sem nenhuma camuflagem, no trânsito de São Paulo, em horário comercial, significa que a decisão já foi tomada e alguém está apenas cumprindo etapas.
É nessa última categoria que apareceu a JMC Vigus Plus — uma picape média a diesel, com tração 4x4 e reduzida, de uma marca chinesa que a maioria dos brasileiros só conhece, se conhece, por caminhões leves.
O segmento em que ela quer entrar é o mais protegido do mercado nacional. Hilux e Ranger dividem a liderança há uma década. S10 resiste. Amarok tem clientela cativa. Toro criou uma categoria inteira sozinha. E agora Kia Tasman e RAM Dakota estão chegando com preço e barulho. Alguém precisa explicar à JMC que o convite não foi enviado.
O que ela traz de mecânica
O coração é um turbodiesel NB25, de 2.5 litros, com 167 cv a 3.400 rpm e 43,7 kgfm de torque a 1.600 rpm. Na versão com câmbio manual de seis marchas, o torque é ligeiramente menor: 41,6 kgfm. Com o automático de oito velocidades, fica nos 43,7.
Traduzindo esses números para a realidade de quem usa picape para trabalhar: 43,7 kgfm chegando aos 1.600 rpm é curva de torque baixa e cheia, exatamente o que se quer para arrancar com carga, subir rampa de sítio em segunda e rebocar sem esquentar o câmbio. O turbodiesel médio brasileiro contemporâneo entrega números da mesma ordem — a Hilux 2.8 fica na casa dos 500 Nm, a Ranger 3.0 V6 vai além — mas 167 cv com 43,7 kgfm é território plenamente competitivo na faixa de entrada e intermediária do segmento.
A tração 4x4 vem com reduzida. Vale sublinhar isso, porque é a diferença entre uma picape de verdade e uma picape de estacionamento de shopping. Caixa de transferência com marcha reduzida é o que permite descer barranco em velocidade controlada, atravessar areia mole sem embalar e tirar o carro do atoleiro sem torrar embreagem.
A suspensão segue a receita clássica e correta para uso pesado: independente na dianteira, eixo rígido com feixe de molas atrás. Ninguém gosta de feixe de molas na estrada vazia. Todo mundo agradece o feixe de molas quando a caçamba está com meia tonelada de brita.
Caçamba de aço, 1.340 litros, uma tonelada
A caçamba tem 1.340 litros de volume e a capacidade de carga fica na casa de uma tonelada. O chassi é do tipo longarina, com construção de aço — arquitetura de veículo comercial, não de crossover com traseira aberta.
Esse ponto merece atenção de quem compara picape por planilha. Uma tonelada de carga útil coloca a Vigus Plus na conversa com as médias tradicionais, e é substancialmente mais do que as compactas de plataforma de monobloco entregam. Para o pequeno produtor, o instalador, o construtor e a prefeitura que compra por licitação, esse é o número que decide a compra — não o tamanho da tela.
Falando na tela: são 12,8 polegadas de multimídia, com quadro de instrumentos digital, bancos dianteiros elétricos, piloto automático, freio de estacionamento eletrônico e um pacote de assistências para uso fora de estrada e em rodovia. É o equipamento que as chinesas usam como argumento de conversão — a mesma lista de itens que numa concorrente japonesa aparece só na versão topo de linha.
O desenho, segundo a própria descrição do projeto, busca uma estética conservadora e sem exageros, mirando o consumidor tradicional. É uma escolha inteligente. O comprador de picape média a diesel é, por definição, o consumidor mais conservador do mercado automotivo brasileiro — o mesmo sujeito que compra Hilux porque o pai comprava Hilux, e que desconfia de qualquer coisa que pareça moderna demais.
O Grupo Gandini e o detalhe que muda tudo
A distribuição no Brasil seria feita pelo Grupo Gandini, potencialmente substituindo a operação que o grupo mantinha com a Kia.
Esse é o dado mais relevante da notícia inteira, e é o que a maioria das reportagens sobre marcas chinesas costuma tratar como nota de rodapé. Carro chinês bom não é raro. Carro chinês com rede de assistência técnica, estoque de peças e capilaridade geográfica é que é raro.
O cemitério de marcas importadas no Brasil está cheio de produtos tecnicamente competentes que morreram porque o cliente esperou noventa dias por um sensor, ou porque a concessionária mais próxima ficava a trezentos quilômetros, ou porque o valor de revenda desabou quando o mercado percebeu o risco. Chery, JAC e Lifan entregaram essa aula em capítulos.
Um grupo com experiência prévia em operar marca de volume — estrutura de pós-venda montada, gente treinada, relação com concessionários — muda a probabilidade de sobrevivência de forma que nenhuma especificação técnica muda. Para o comprador de picape, que precisa do veículo funcionando na segunda-feira porque ele é o negócio, isso vale mais do que oito marchas.
O que ainda não se sabe
Nada de preço. Nada de data oficial de lançamento. Nada sobre quais versões viriam, se haveria nacionalização de alguma etapa, ou como fica a garantia.
A JMC tem no catálogo global outra picape maior, a Grand Avenue, além de comerciais e uma linha elétrica com o sedã Elight e o SUV Ewind. Uma estreia no Brasil com a Vigus Plus como carro-chefe faria sentido comercial: é o produto de maior volume potencial e o que enfrenta o rival mais previsível.
Para quem está com compra de picape no radar, o conselho é o de sempre e vale o dobro para marca entrante: não compre o primeiro lote. Espere a rede de concessionárias estar de pé, o catálogo de peças abastecido e os primeiros seis meses de rodagem real revelarem o que a ficha técnica nunca conta. A economia de um lançamento agressivo evapora rápido se o carro passa três semanas parado esperando uma bomba de combustível vinda de Nanchang.
Dito isso, vale registrar o que está acontecendo. O segmento de picapes médias a diesel foi, por três décadas, o mais impermeável do mercado brasileiro — o lugar onde a lealdade de marca é quase religiosa e onde entrar exigia bilhões em fábrica e paciência de década.
Em dois anos, esse mesmo segmento recebeu a Kia Tasman, a RAM Dakota, um projeto de picape da Volkswagen e agora uma chinesa rodando sem camuflagem pela Marginal. A Hilux não está em perigo. Mas ela nunca teve que se preocupar com tanta gente ao mesmo tempo.
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