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A China cansou das telas gigantes e mandou os botões de volta — 19 deles, por lei

A China cansou das telas gigantes e mandou os botões de volta — 19 deles, por lei

Imagine a cena: você está a 100 km/h numa rodovia molhada, o carro da frente freia sem aviso, e você precisa ligar o pisca-alerta. Num carro de vinte anos atrás, sua mão encontraria, sem olhar, aquele botão vermelho triangular no centro do painel — o dedão já sabia o caminho de cor. Num carro moderno de tela gigante, você talvez precise tirar os olhos da pista, procurar o ícone certo numa grade de aplicativos, esperar o toque ser reconhecido e torcer para não ter esbarrado no controle do ar-condicionado no processo.

Foi exatamente esse tipo de situação que fez a China, o maior mercado automotivo do planeta e o berço da febre das telas colossais, dar meia-volta. Numa regulação divulgada em fevereiro e finalizada agora em julho, o governo chinês passou a exigir que 19 funções ligadas à segurança tenham obrigatoriamente um comando físico — um botão, uma alavanca, um interruptor de verdade, que se possa apertar sem olhar. As montadoras têm até 1º de julho de 2027 para colocar as mãos na massa e redesenhar seus interiores.

Quais são as 19 funções que voltam ao mundo físico

A lista não é aleatória. Todas as funções escolhidas têm uma coisa em comum: são coisas que você precisa acionar rápido, muitas vezes em situação de emergência, sem poder gastar segundos preciosos caçando um menu. Entre os itens citados estão as setas indicadoras de direção, as luzes de alerta, a buzina, o seletor de marchas PRND, os comandos de assistência ao motorista, os limpadores de para-brisa, o desembaçador dianteiro, os vidros elétricos, o sistema de chamada de emergência e a chave de desligamento para veículos elétricos.

Repare no padrão: nenhuma dessas funções é supérflua. Ninguém morre por ter que abrir um menu para trocar a cor da iluminação ambiente ou ajustar o equalizador do som. Mas ligar o limpador quando começa a chover, acionar a buzina para evitar uma colisão ou encontrar o pisca-alerta ao encostar no acostamento — essas são decisões de frações de segundo. E frações de segundo, no trânsito, são a diferença entre o susto e o acidente.

A justificativa oficial resume bem o diagnóstico: telas "podem responder devagar, esconder funções em menus e exigir atenção visual justamente nos momentos em que o motorista precisa focar na via". Em outras palavras, o regulador chinês admitiu por escrito aquilo que muitos motoristas já resmungavam há anos no banco do motorista.

Como a moda começou — e por que se espalhou tão rápido

Para entender a reviravolta, é preciso voltar a quem começou. A Tesla é apontada como a pioneira dessa estética minimalista, começando com o Model S e levando ao extremo a ideia de concentrar tudo numa única tela central. Aos poucos, funções que sempre foram físicas — o seletor de marchas, o controle dos limpadores — migraram para o toque ou para submenus. O visual ficou limpo, futurista, digno de propaganda. E as demais montadoras, especialmente as chinesas em plena ascensão, correram atrás.

Havia também um motivo nada glamouroso por trás da tendência: telas são baratas de instalar e caras de impressionar. Um único painel de vidro substitui dezenas de botões, alavancas, chicotes e conectores, simplificando a linha de montagem e reduzindo custos. Ainda por cima, permite atualizações via software e dá ao interior aquele ar de smartphone sobre rodas que vende bem no showroom. Do ponto de vista comercial, era um negócio quase perfeito.

O problema é que o showroom não é a estrada. No estacionamento parado, mexer numa tela é divertido. Em movimento, com trânsito, chuva e distrações, cada segundo com os olhos longe da pista cobra um preço. E os estudos de ergonomia foram se acumulando, mostrando que tarefas simples levam mais tempo — e mais atenção visual — quando dependem de toque do que quando dependem de um botão que a mão memoriza.

A China não está sozinha nessa

O movimento chinês não é um capricho isolado. A Europa trilhou caminho parecido: o programa Euro NCAP, referência mundial em avaliação de segurança, passou a exigir comandos físicos para funções essenciais como condição para que um carro alcance a nota máxima de cinco estrelas. Ou seja, montadora que quiser exibir o selo de segurança máximo no continente europeu vai ter que manter botões de verdade para o que importa.

Não à toa, avaliações recentes já começaram a penalizar modelos que apostaram tudo no toque. Um exemplo emblemático: a perua elétrica Zeekr 7 GT tirou as cinco estrelas no Euro NCAP, mas levou uma bronca dos avaliadores justamente por depender demais da tela para funções que deveriam ser táteis — um sinal claro de para onde o vento está soprando.

Do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos ainda não definiram nada parecido. O ritmo americano é descrito como mais lento nesse tipo de mudança, o que deixa o mercado dividido: enquanto China e Europa puxam de volta o botão físico, os EUA seguem, por enquanto, na era do toque irrestrito. Para as montadoras globais, isso significa ter que projetar interiores que agradem a dois mundos regulatórios distintos.

O que isso muda para quem dirige

Aqui vale um recado ao motorista brasileiro, que vive num mercado cada vez mais dominado por marcas chinesas. Boa parte dos carros que chegam ao Brasil com painéis-tablet vem justamente da China, e as regras que valem lá acabam moldando os projetos que desembarcam aqui. Se a China obriga botões físicos em casa, é bem provável que essas mesmas plataformas cheguem ao Brasil já com os comandos táteis de volta — não por exigência brasileira, mas por padronização industrial. É a rara ocasião em que a burocracia de um mercado distante trabalha a favor do seu dedão.

Há também uma lição de consumo embutida. Na hora de escolher um carro, o comprador brasileiro tende a se encantar com o tamanho e o brilho da tela central, tratando-a como sinônimo de modernidade. A regulação chinesa é um lembrete de que sofisticação de verdade não é esconder tudo atrás do vidro — é saber o que deve permanecer ao alcance do dedo, sem olhar, sem menu, sem espera. Um bom carro moderno não é o que tem mais tela; é o que sabe exatamente quando o botão físico ainda é a melhor tecnologia disponível.

No fim, a história das telas gigantes é uma daquelas em que a indústria correu na frente do bom senso e agora precisa recuar. A China, que empurrou a moda para o mundo, é a mesma que agora manda os botões de volta. E talvez a melhor forma de resumir a lição seja assim: a tecnologia mais avançada de um carro não é a que faz você olhar para ela — é a que deixa você continuar olhando para a estrada.

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