Acordo automotivo entre Brasil e Argentina cria estratégia contra o avanço chinês
Representantes das indústrias automotivas e de autopeças de Brasil e Argentina firmaram um novo acordo de convergência durante a Automechanika Buenos Aires 2026. O objetivo das entidades é reestruturar o setor na região para enfrentar o atual cenário de sobreoferta global e as rápidas mudanças tecnológicas. O objetivo é tornar o Mercosul em uma plataforma exportadora unificada e competitiva diante da ameaça das fabricantes chinesas.
A parceria foi formalizada por meio de uma declaração assinada pelas brasileiras Anfavea e Sindipeças, em conjunto com as argentinas Adefa e Afac. A meta principal do grupo é atualizar e fortalecer a Política Automotiva Bilateral, regida pelo Acordo de Complementação Econômica nº 14 (ACE 14), estabelecendo novas regras até o ano de 2029.
A intenção sinalizada pelo setor é deixar de atuar apenas como um gestor do intercâmbio comercial para se tornar um administrador focado na produção em escala.
O que a entidades buscam
As associações definiram cinco pilares para a nova agenda conjunta. O foco principal recai sobre a especialização produtiva, buscando a complementação entre as fábricas dos dois países para evitar a concorrência interna pelos mesmos perfis de produtos e otimizar a cadeia produtiva.
Fabricação do VW Polo Track em Taubaté (SP)Fernando Pires/Quatro Rodas
O documento também prevê o fortalecimento da cadeia de valor local com investimentos equilibrados, além do desenvolvimento coordenado de tecnologias automotivas regionais. As entidades buscam criar um ambiente capaz de produzir sistemas de autopeças de maior complexidade.
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Para viabilizar essa integração de forma fluida, Brasil e Argentina deverão avançar na harmonização e no reconhecimento mútuo de regulamentos técnicos automotivos, regra que deve abranger também o mercado de reposição de peças. Há também a demanda pela facilitação e desburocratização dos processos aduaneiros nas fronteiras.
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Peso do bloco na indústria global
A reestruturação busca evitar a perda de participação do Mercosul na atração de novos aportes para as plataformas globais em um momento de transição de matriz energética. Atualmente, o bloco representa um mercado consumidor de 350 milhões de pessoas e possui uma capacidade produtiva instalada de 5 milhões de unidades anuais.
No último triênio, a região contabilizou investimentos superiores a US$ 22 bilhões. A relevância econômica do setor é expressiva em ambos os territórios. No Brasil, a cadeia automotiva responde por 20% do PIB industrial, enquanto na Argentina o índice é de 8,4%.
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Fabricação do Peugeot 2008 em El Palomar, ArgentinaDivulgação/Stellantis
O comércio intrarregional do setor automotivo representa entre 55% e 70% das exportações de produtos industrializados entre as nações vizinhas. Ao todo, a cadeia emprega direta e indiretamente mais de 1,93 milhão de pessoas na região.
Desafios do Mercosul
A relação comercial automotiva entre Brasil e Argentina é historicamente baseada no multiplicador “flex”, um mecanismo atrelado ao ACE 14 que exige uma proporção máxima de importações para cada dólar exportado com isenção de impostos. O prazo de 2029 estipulado pelas entidades não é aleatório: ele coincide com a data estipulada em acordos governamentais anteriores para o início efetivo do livre comércio automotivo (sem cotas ou limitadores) entre os dois países.
Atualmente, o acordo atravessa uma escala gradativa de limites que obriga a indústria de ambos os países a ganhar competitividade até a abertura total do mercado:
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• Até junho de 2027: o limite (flex) é de 2,0. Ou seja, para cada US$ 1 importado da Argentina, o Brasil pode exportar US$ 2 sem a cobrança de impostos.
• Julho de 2027 a Junho de 2028: o flex sobe para 2,5.
• Julho de 2028 a Junho de 2029: o flex atinge o teto de 3,0.
• A partir de julho de 2029: Livre comércio automotivo. O regime de cotas do “flex” acaba e o intercâmbio de veículos e peças será isento de tarifas independentemente dos valores negociados.
A movimentação das associações reflete a necessidade de modernização frente à ameaça das marcas chinesas exatamente em um momento de transição para os carros híbridos e elétricos. Historicamente, a Argentina especializou-se na produção de picapes médias (de lá saem Hilux, Ranger e Amarok, por exemplo), enquanto o Brasil concentrou volume em hatchbacks, sedãs e SUVs compactos.
A premissa de especialização produtiva sugere que o setor busca aprofundar essa divisão de tarefas de forma oficial. A estratégia visa blindar as fabricantes da ociosidade fabril, garantindo que as plantas de ambos os países se complementem e se tornem polos globais de exportação para a América Latina e outros mercados emergentes. A partir do momento em que não houver cotas, não haverá barreiras tarifárias para proteger o produto do país vizinho, e vice-versa. Por isso o setor tenta alinhar desde já uma estratégia que determine quem será o melhor “polo” para cada tipo de veículo.
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