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E se o seu IPVA passasse a depender do peso do carro, e não do valor dele?

E se o seu IPVA passasse a depender do peso do carro, e não do valor dele?

Todo começo de ano, milhões de brasileiros recebem a mesma notícia indigesta: o boleto do IPVA. E todo começo de ano, muita gente faz a mesma pergunta ao olhar o valor — por que esse número é esse? A resposta atual é relativamente simples de explicar, ainda que difícil de engolir: o Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores incide sobre o valor venal do carro, aquele preço de referência que a tabela Fipe atribui ao seu modelo. Quanto mais caro o carro vale no mercado, maior o imposto. Agora, uma proposta em tramitação na Câmara quer mudar radicalmente essa lógica.

Trata-se da PEC 3/26, de autoria do deputado Kim Kataguiri, aprovada em 8 de julho de 2026 pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados. A ideia central é substituir o valor de mercado pelo peso do veículo como critério principal de cálculo do IPVA, estabelecendo ainda um limite máximo de 1% sobre o preço de venda. É uma daquelas mudanças que parecem técnicas, mas que mexeriam diretamente no bolso de praticamente todo dono de carro do país.

Do valor ao quilo: como a conta mudaria

Hoje, a fórmula do IPVA é um casamento entre a tabela Fipe e a alíquota que cada estado define. O estado olha quanto o seu carro vale, aplica um percentual — que varia conforme a unidade da federação — e chega ao valor devido. É por isso que dois carros idênticos podem pagar impostos diferentes dependendo do estado onde estão emplacados, e é por isso também que, à medida que o carro envelhece e desvaloriza na Fipe, o imposto tende a cair ano a ano.

A PEC 3/26 propõe trocar essa âncora. Em vez do valor, o peso passaria a ser o principal balizador. Na prática, quanto mais pesado o veículo, maior seria a base de cálculo — com a trava de que o imposto não poderia ultrapassar 1% do preço de venda. A lógica por trás da mudança tem um argumento de infraestrutura embutido: veículos mais pesados desgastam mais o asfalto, ocupam mais espaço e, em tese, impõem um custo maior à malha viária que todos pagam.

Quem ganha e quem perde nessa balança

Como toda mudança de regra tributária, essa criaria vencedores e perdedores bem definidos. Do lado dos beneficiados estariam os veículos compactos e leves — os carros populares que lotam as ruas brasileiras. Também sairiam ganhando os automóveis de alto valor de mercado, porém baixo peso: pense num esportivo caro, mas enxuto, que hoje paga um IPVA salgado por causa do preço e passaria a pagar bem menos por causa da balança.

Do lado dos prejudicados, o retrato é igualmente claro: SUVs grandes, picapes e veículos pesados de modo geral. E aqui mora um detalhe curioso e potencialmente polêmico — mesmo modelos antigos e já desvalorizados, mas que continuam pesados, poderiam ver o imposto subir em relação ao que pagam hoje. Uma picape robusta de dez anos, que na conta atual paga pouco porque desvalorizou bastante na Fipe, poderia ser tributada mais pesadamente na nova lógica simplesmente por continuar sendo uma máquina de duas toneladas.

Foi justamente esse tipo de distorção que gerou uma das críticas mais citadas à proposta: a de que o novo cálculo poderia fazer com que "um carro esportivo muito caro, mas leve, pague menos imposto do que um caminhão". Para quem defende o IPVA como imposto sobre riqueza e capacidade contributiva, trocar valor por peso soa como abrir mão de um princípio de justiça fiscal. Para quem defende a proposta, o peso é um critério mais objetivo e ligado ao uso real da infraestrutura.

Um aceno ambiental na letra miúda

A PEC não se limita ao peso. O texto também prevê que os estados poderão conceder descontos para veículos menos poluentes — uma brecha pensada para incentivar carros mais limpos e alinhar a tributação a metas ambientais. Na teoria, isso poderia suavizar o golpe para híbridos e elétricos, que costumam ser mais pesados por causa das baterias e que, sob um critério puro de peso, seriam penalizados.

É um ponto que merece atenção de quem está pensando em migrar para um elétrico. As baterias que dão autonomia ao carro também adicionam centenas de quilos à balança. Sem o desconto ambiental compensatório, um SUV elétrico poderia acabar numa faixa de tributação alta justamente por causa da tecnologia que o torna limpo. A previsão de descontos estaduais é, portanto, a peça que tenta impedir que a nova regra atrapalhe a eletrificação que o próprio país diz querer incentivar.

Calma: ainda é só o primeiro degrau

Antes que alguém corra para trocar de carro em função do IPVA, é fundamental entender em que pé a proposta realmente está. A aprovação na CCJ é apenas a primeira etapa de um caminho longo e cheio de curvas. Por ser uma Proposta de Emenda à Constituição, o texto ainda precisa passar por uma comissão especial e, depois, ser votado em dois turnos no plenário da Câmara, com quórum qualificado — e tudo isso antes de seguir para o Senado, onde o rito se repete. Ou seja: a mudança está longe, muito longe, de valer.

Na prática, isso significa que nada muda no seu IPVA de 2026 nem, provavelmente, no de 2027. A regra atual, baseada na Fipe, continua valendo integralmente. O que existe hoje é uma sinalização política de que há apetite no Congresso para repensar a forma como o Brasil tributa seus veículos — algo que, dada a resistência natural de estados que dependem dessa arrecadação, tende a render muita discussão pelo caminho.

Ainda assim, vale ficar de olho. Se a PEC avançar, ela pode reconfigurar o cálculo de compra de um carro no Brasil — fazendo o peso entrar na conta ao lado do preço, do consumo e do seguro. Por ora, o conselho é o de sempre: quando o assunto é imposto, a promessa e a realidade costumam andar em velocidades bem diferentes. O boleto de janeiro que você já conhece continua sendo, por enquanto, o mesmo velho conhecido.

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