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O elétrico mais aguardado da Europa foi silenciosamente arquivado — e a Nissan não quer falar sobre isso

O elétrico mais aguardado da Europa foi silenciosamente arquivado — e a Nissan não quer falar sobre isso

No início de 2025, sem comunicado oficial, sem nota à imprensa, sem vídeo de despedida nas redes sociais, o Nissan Qashqai elétrico deixou de existir. Não como produto cancelado com cerimônia, mas como aquele projeto de academia que você abandona na segunda semana de janeiro: lentamente, em silêncio, esperando que ninguém perceba.

Perceberam. Em junho de 2026, a Reuters publicou uma reportagem baseada em seis fontes internas da Nissan confirmando que o Qashqai EV foi removido do cronograma europeu no começo de 2025. O veículo era parte de um trio de elétricos anunciado em 2023 para produção na fábrica de Sunderland, no Reino Unido — ao lado do novo LEAF e do Juke. Dois saem, um some.

Para quem acompanha o mercado europeu de carros, o Qashqai não é qualquer carro. É o produto mais vendido da Nissan no continente, com 147.200 unidades emplacadas em 2025, representando aproximadamente 42% de toda a receita europeia da marca. Cancelar a versão elétrica desse carro é como uma pizzaria remover a margherita do cardápio porque achou que ninguém ia pedir.

A instabilidade que ninguém esperava ser tão instável

A justificativa oficial da Nissan — na medida em que há algo de oficial — é que a demanda por veículos elétricos na Europa tem apresentado "forte instabilidade". E isso, convenhamos, é uma verdade inconveniente que a indústria inteira preferiu não ver com clareza suficiente lá em 2021 e 2022, quando as projeções de adoção de EVs pareciam as projeções de crescimento de startup em apresentação para investidor: otimistas ao ponto da ficção.

A realidade é que os europeus adotaram elétricos mais devagar do que os fabricantes planejaram. As vendas cresceram, sim, mas não no ritmo que justificava bilhões de euros em investimento em plataformas dedicadas para cada modelo do portfólio. Os consumidores continuaram pedindo carros a combustão e híbridos — e a oferta de elétricos baratos da China tornou a equação ainda mais complicada para quem precisava recuperar investimento em veículos com preços premium.

No caso específico da Nissan, a situação é mais delicada porque a empresa não estava exatamente numa posição de força para absorver apostas erradas. Em 2024 e 2025, a montadora cortou 20.000 empregos — 15% de toda a força de trabalho global. Cancelou uma fábrica de baterias no Japão. Desistiu de produzir dois novos SUVs elétricos nos Estados Unidos. A palavra de ordem virou "sobrevivência", e projetos ambiciosos passaram pelo filtro impiedoso do orçamento.

Sunderland, a fábrica que virou símbolo de uma escolha

A fábrica de Sunderland é um capítulo à parte nessa história. Inaugurada em 1986, ela é a maior planta de fabricação de automóveis no Reino Unido e um símbolo político considerável — foi uma das fichas do debate sobre Brexit, com a Nissan sendo repetidamente citada como exemplo de empresa que permaneceria no país apesar da saída da União Europeia.

Anunciar, em 2023, que Sunderland produziria três modelos elétricos foi uma declaração de compromisso que extrapolava o negócio: era uma mensagem política, uma promessa de empregos, um ato de fé na reindustrialização britânica. Dois anos depois, o Qashqai EV saiu da lista. O novo LEAF começou produção em dezembro de 2025. O Juke EV está previsto para a primavera de 2027. O Qashqai elétrico, se retomado, dificilmente chegaria antes de 2030.

Para os trabalhadores de Sunderland, a pergunta é óbvia: o que garante que o Juke também não some do cronograma antes de chegar às mãos dos primeiros clientes? A Nissan não respondeu diretamente. Raramente responde.

O fantasma com sobrenome chinês

Por trás do cancelamento do Qashqai EV está uma sombra que a Nissan menciona nas entrelinhas das justificativas: a competição chinesa. A BYD, a Xpeng, a NIO — todas chegaram ao mercado europeu com elétricos progressivamente mais baratos, mais equipados e mais atualizados do que as montadoras ocidentais e japonesas conseguiam oferecer.

Quando a Nissan anunciou o trio de elétricos em 2023, a presença chinesa na Europa ainda era relativamente contida. Em 2025, ela havia se tornado uma força estrutural. Lançar um Qashqai elétrico a um preço que recuperasse o investimento no desenvolvimento virou uma conta que fechava cada vez mais difícil.

O movimento estratégico da montadora é claro: pivotar para híbridos, onde a concorrência chinesa ainda não é tão dominante e onde o consumidor europeu demonstra mais conforto. A tecnologia e-Power, que usa o motor a combustão exclusivamente como gerador elétrico, é o caminho que a Nissan encontrou para oferecer uma experiência de dirigir elétrica sem a infraestrutura de recarga e a ansiedade de autonomia que ainda travam o mercado de EVs puros.

É uma aposta razoável. Talvez até inteligente. Mas deixa o Qashqai — o carro que mais importa para a Nissan na Europa — sem uma resposta elétrica para os próximos anos, num momento em que regulamentações e incentivos estão cada vez mais direcionados a zero emissões.

O que fica depois da cancela

O episódio do Qashqai EV é um microcosmo do que acontece quando projeções de mercado otimistas encontram a realidade operacional de uma indústria que custa bilhões para transformar. Não é uma história de fracasso tecnológico — a Nissan sabe fazer veículos elétricos desde 2010, quando lançou o LEAF original. É uma história de timing, de competição e de como a pressão financeira força escolhas que nenhuma estratégia de longo prazo previu.

Para os consumidores europeus que esperavam um Qashqai com plug, o recado é claro: prepare-se para esperar mais alguns anos. Para quem já tem um, a boa notícia é que o modelo a combustão continua vendendo muito bem — o que significa que peças, revisões e suporte de concessionárias não vão sumir tão cedo.

Para a Nissan, o desafio é maior. Uma marca que foi pioneira em carros elétricos com o LEAF, que por anos se posicionou como vanguarda da mobilidade limpa, agora assiste a outras marcas e, especialmente, a fabricantes chineses, ocuparem o espaço que ela ajudou a criar. O Qashqai EV era a chance de reconquistar parte desse terreno no modelo mais importante do portfólio europeu.

Essa chance, por ora, está guardada numa gaveta. E as gavetas da indústria automotiva têm o hábito inconveniente de permanecer fechadas por muito mais tempo do que o planejado.

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