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Move Brasil: o governo abriu o cofre para elétricos e as concessionárias não deram conta

Move Brasil: o governo abriu o cofre para elétricos e as concessionárias não deram conta

Existem programas de governo que nascem para ser anunciados e existem programas que nascem para ser usados. O Move Brasil parece, pelos primeiros sinais, pertencer ao segundo grupo — o que não é tão comum quanto deveria ser. Na segunda-feira passada, quando as concessionárias abriram as portas com as condições do programa disponíveis, a fila já tinha se formado. A BYD, sozinha, registrou 14.500 atendimentos em 210 concessionárias em um único dia. Isso é 69 pessoas por loja. É muito para um dia que começa com dúvidas sobre se o sistema vai funcionar.

O programa foi desenhado para uma categoria específica de motorista: o trabalhador de transporte por aplicativo. Motoristas do Uber, 99, InDriver e similares com pelo menos 12 meses cadastrados na plataforma e 100 corridas no histórico podem acessar financiamento com juros de 0,99% ao mês para homens e 0,91% ao mês para mulheres, em prazo de até 72 meses, com carência de até seis meses. O teto do veículo é R$ 150 mil. O crédito total disponível é R$ 30 bilhões, operado pelo BNDES.

Para um motorista de aplicativo que roda 8 horas por dia, financiar um elétrico com essas condições não é um favor do governo — é matemática de negócio.

Por que elétrico faz sentido para motorista de app

O custo de combustível representa, para a maioria dos motoristas de aplicativo, entre 25% e 35% da receita bruta. Em um carro a gasolina que faz 10 km/l, rodando 200 km por dia, são 20 litros diários — perto de R$ 140 por dia nos preços atuais. Em um elétrico carregado em casa ou em ponto público de recarga lenta, o custo equivalente fica entre R$ 20 e R$ 40, dependendo da tarifa de energia.

A diferença de R$ 100 por dia, ao longo de 22 dias úteis por mês, são R$ 2.200. Dependendo das condições de financiamento, a parcela mensal de um Dolphin Mini no Move Brasil fica abaixo disso. O carro, em tese, se paga com a economia de combustível — um argumento que as montadoras tentam fazer há anos mas que raramente fecha a conta quando os juros estão nos dois dígitos que costumam prevalecer no Brasil.

Com 0,99% ao mês, a conta fecha. E o motorista vai para a fila.

Quais carros cabem no programa

O teto de R$ 150 mil no valor do veículo é a variável que definiu quais marcas e modelos entram na conversa. Das grandes montadoras, apenas os modelos mais baratos das marcas de entrada se enquadram. Fiat, Chevrolet, Renault, Peugeot e Citroën participam do programa, mas precisaram fazer ajustes de preço para que alguns modelos coubessem no teto.

A Fiat reduziu o preço da Strada. A Peugeot oferece o 208 a partir de R$ 88.990 — uma redução expressiva sobre o preço de tabela — e o 2008 com desconto de mais de R$ 50 mil. A Renault e a Citroën têm modelos compactos que entram naturalmente.

Para as marcas chinesas, o teto é mais confortável. O BYD Dolphin Mini sai por R$ 109.990 no programa. O Dolphin GS, versão com mais equipamentos, por R$ 129.990. A Geely tem o EX2 em várias configurações, com preços entre R$ 99 mil (na versão para taxistas com isenções) e R$ 130 mil. A GWM entrou com o Ora 03. São todos carros que funcionam bem para percursos urbanos repetitivos — exatamente o perfil do motorista de aplicativo.

Os gargalos que o entusiasmo não menciona

14.500 atendimentos num dia é uma boa manchete. O que acontece depois não costuma aparecer nas manchetes. A aprovação de crédito pelo BNDES passa por análise que pode levar dias ou semanas. Motoristas sem comprovação formal de renda — situação comum em trabalho por plataforma — podem ter dificuldade em atender os critérios de análise de crédito dos bancos parceiros.

Há também a questão da infraestrutura de carregamento. Um Dolphin Mini com 200 km de autonomia real funciona bem para o motorista que tem onde carregar em casa — preferencialmente com tomada 220V, que carrega o carro em 6 a 8 horas durante a madrugada. Para motoristas que moram em apartamento sem vaga de garagem própria ou em condomínios sem tomada compatível, a equação muda. Precisarão usar carregadores públicos, que estão distribuídos de forma desigual pelo país — abundantes em São Paulo e escassos em cidades médias.

O programa também é limitado, por enquanto, a motoristas de app e taxistas. Motoristas profissionais que trabalham com transporte escolar, delivery de cargas leves ou outros serviços não têm acesso às mesmas condições. O argumento do governo é que esse público tem mais facilidade de comprovar renda e histórico de utilização — o que simplifica a análise de crédito. O resultado prático é que os 30 bilhões se concentram numa parcela específica do mercado.

O que o programa revela sobre a política automotiva brasileira

O Move Brasil não caiu do céu. É resultado de uma disputa de anos entre o governo federal, as montadoras tradicionais e as marcas chinesas sobre como estruturar os incentivos à eletrificação. A versão final — focada em trabalhadores de mobilidade urbana, com BNDES como operador e teto de R$ 150 mil — é um equilíbrio entre demandas conflitantes: dar impulso ao elétrico sem abandonar completamente os carros populares a combustão que empregam mais gente na indústria local.

É um programa de transição, não de revolução. Não vai tirar os carros a combustão das ruas do Brasil em 24 meses. Mas pode acelerar a familiarização de uma categoria de motoristas com o carro elétrico — e isso tem valor estratégico que vai além do número de unidades financiadas.

O motorista de aplicativo que comprar um Dolphin Mini agora vai falar desse carro para os passageiros que carregar durante os próximos quatro anos. Vai explicar como funciona o carregamento. Vai mostrar a conta de luz. Vai ser, involuntariamente, o melhor ou pior embaixador do elétrico para uma fatia da população que ainda não decidiu o que acha da tecnologia.

O governo apostou que esse motorista vai gostar do que tem. Os 14.500 que foram à concessionária na segunda-feira sugerem que a aposta não é descabida.

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