A fábrica que fez história com ônibus monobloco agora vai montar caminhões chineses: a planta da Mercedes em Campinas renasce pelas mãos da Sany em novembro
Toda fábrica antiga tem uma alma, e a de Campinas tem nome e formato: o ônibus monobloco da Mercedes-Benz. Por décadas, foi dali que saíram os coletivos que carregaram milhões de brasileiros por avenidas, estradas e rodoviárias do país inteiro. A carroceria monobloco — aquela que dispensava o chassi separado e reduzia peso de forma engenhosa — virou ícone de uma época em que ônibus era assunto de engenharia, não apenas de tarifa. Essa era acabou faz tempo. O que poucos imaginavam é como ela ia recomeçar.
A planta da Mercedes-Benz em Campinas, no interior de São Paulo, que nos últimos anos havia se convertido em discreto Centro de Distribuição de Peças, está prestes a voltar a fabricar veículos. Só que não serão ônibus, não serão Mercedes, e não serão movidos a diesel. A partir de novembro de 2026, o galpão vai abrigar a montagem de caminhões da chinesa Sany — uma das maiores fabricantes de máquinas pesadas do mundo, que decidiu que chegou a hora de produzir em solo brasileiro em vez de apenas importar.
É o tipo de reviravolta que resume, num único endereço, tudo o que está acontecendo com a indústria automotiva nacional.
De importadora de máquinas a montadora de caminhões
A Sany não é uma estreante recém-chegada que desembarcou ontem com um contêiner e muita ambição. A empresa atua há quase vinte anos no Brasil importando máquinas pesadas, e construiu reputação fornecendo equipamento para os setores sucroalcooleiro, de mineração, de transporte portuário e de agronegócio. São os clientes mais exigentes que existem: gente que mede o valor de um veículo em horas de operação sem parar e em custo por tonelada movida, não em acabamento de painel ou cor de banco.
Até agora, a aposta da marca em caminhões era cautelosa. A Sany importou 25 unidades para sentir o terreno, direcionadas justamente a esses setores pesados que já conheciam a empresa por suas escavadeiras e guindastes. Foi um teste de mercado disfarçado de venda. E, pelo visto, o resultado convenceu a matriz a dar o passo seguinte — o mais caro e o mais comprometedor de todos: produzir aqui dentro.
"Estamos trabalhando a passos largos para produzir unidades até novembro, inclusive com montagem de unidades piloto", afirmou Dieter Martin Lommer, diretor de vendas e marketing de caminhões da operação brasileira. Dois protótipos já estão em fase de testes: um caminhão dumper, com caçamba, voltado a mineração e construção, e um cavalo elétrico, o modelo 588 Composite.
Um cavalo elétrico de R$ 1,8 milhão para abrir o jogo
O carro-chefe — ou melhor, o cavalo-chefe — da estreia nacional é o Sany 588 Composite, e ele não é modesto. Trata-se de um caminhão elétrico com 550 cavalos de potência e uma bateria monumental de 588 kWh, número que dá nome ao modelo. O preço acompanha a ambição: R$ 1,8 milhão. É veículo para frota especializada, não para o transportador autônomo que financia o caminhão em sessenta vezes.
"Mantemos como no original, um caminhão dumper com caçamba e um cavalo elétrico 588 Composite", explicou Lommer, deixando claro que a marca primeiro precisa erguer a estrutura produtiva antes de ampliar o catálogo. A montagem das unidades-piloto é o ensaio geral antes da estreia oficial, o momento em que a linha aprende a andar antes de correr.
Vale o registro de que a Sany, embora aposte com força na eletrificação, não fechou a porta para o diesel. A empresa não descarta produzir, no futuro, caminhões movidos a combustível convencional — uma flexibilidade pragmática que faz todo sentido num país onde a infraestrutura de recarga para veículos pesados ainda é mais promessa que realidade fora de algumas rotas privilegiadas.
O Brasil virou destino, não apenas mercado
O que torna essa história maior do que um simples anúncio industrial é o padrão que ela representa. A Sany se junta a uma fila cada vez mais longa de fabricantes chineses que decidiram que importar para o Brasil não basta — é preciso produzir aqui. BYD montou fábrica na Bahia. MG anunciou investimento no Ceará. GWM ocupou a antiga planta da Mercedes em Iracemápolis. E agora a Sany ressuscita um galpão da própria Mercedes em Campinas.
Há uma lógica fria por trás de toda essa movimentação, e ela atende pelo nome de tarifa. O governo brasileiro vem reintroduzindo, de forma gradual, o imposto de importação sobre veículos vindos da China, num esforço declarado de proteger a indústria local e forçar a nacionalização da produção. A mensagem para as marcas chinesas foi entendida com clareza: ou vocês montam aqui e geram emprego, ou pagam caro para vender importado. A Sany, como tantas outras, fez a conta e escolheu o cimento brasileiro.
Fundada em 1989, a Sany cresceu da construção civil chinesa para se tornar um conglomerado de máquinas pesadas presente no mundo inteiro, de caminhões leves a veículos de caçamba para mineração de porte continental. Trazer essa musculatura industrial para Campinas não é aventura de fim de semana — é movimento estratégico de quem enxerga o Brasil como peça permanente no tabuleiro, e não como mercado de oportunidade passageira.
Quando o passado e o futuro dividem o mesmo galpão
Há uma poesia industrial nessa transição que merece ser saboreada. O mesmo chão que viu nascer os ônibus monobloco da Mercedes — símbolos de uma engenharia brasileira que sabia fazer muito com pouco peso — vai agora abrigar caminhões elétricos de uma marca que, há vinte anos, mal existia no radar do transportador nacional. É o ciclo da indústria em sua forma mais crua: o que foi glória de uma era vira espaço ocioso, e o espaço ocioso vira a aposta de outra.
Para Campinas, e para a economia da região, o que importa é menos a nostalgia e mais o futuro: uma linha de montagem voltando a funcionar significa fornecedores, empregos diretos e indiretos, e a sensação reconfortante de que o galpão não virou apenas depósito de caixas. Em novembro, quando o primeiro Sany sair montado dali, a fábrica que fez história com ônibus terá começado um capítulo novo — escrito em mandarim, movido a bateria, mas plantado, com cimento e contrato, em solo paulista.
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