O McLaren F1 GTR do baterista do Pink Floyd vai a leilão por US$ 35 milhões — depois de ser batido duas vezes
Existe uma categoria muito específica de proprietário de carro raro: aquele que usa. Não guarda em garagem climatizada com pneu calçado e bateria em mantenedor, não tira da capa uma vez por ano para fotografar. Usa. Leva para a pista, acelera de verdade, e aceita as consequências.
Nick Mason, baterista do Pink Floyd, é o exemplo mais conhecido dessa espécie. E o McLaren F1 GTR de chassi 10R que a RM Sotheby's leva a leilão com estimativa de US$ 35 milhões — cerca de R$ 179 milhões pela cotação atual — carrega no histórico a prova documental disso: o carro foi danificado duas vezes, e numa delas quem estava ao volante era o dono.
Um dos 28, e não é força de expressão
Para entender o valor, é preciso entender a escassez. Foram construídos 28 McLaren F1 GTR no total — nove em 1995, nove em 1996 e dez em 1997. Vinte e oito unidades no mundo inteiro, de todas as especificações somadas.
O GTR era a versão de competição do F1, aquele carro que a McLaren lançou nos anos 1990 com uma proposta que hoje parece delírio: três lugares com o motorista no centro, monocoque de fibra de carbono, motor V12 BMW e compartimento do motor revestido de ouro porque ouro reflete calor melhor que qualquer outra coisa que coubesse ali.
O detalhe técnico que importa nesta história é que, entre a versão de rua e a de corrida, o componente efetivamente compartilhado era o monocoque. Suspensão, aerodinâmica, refrigeração, câmbio e a calibração do motor eram outros. O V12 do GTR entregava cerca de 600 cavalos, com restritor de admissão imposto pelo regulamento — que, curiosamente, limitava a potência a um valor inferior ao da versão de rua, sem restritor.
Sim: o carro de corrida tinha menos potência que o de rua. E era muito mais rápido, porque potência sozinha nunca ganhou corrida nenhuma. Aerodinâmica, peso e como você põe a força no chão decidem.
O carro que quase correu Le Mans
O chassi 10R é de 1996 e participou da pré-qualificação para as 24 Horas de Le Mans daquele ano. Participou da pré-qualificação — não da corrida.
Essa é uma daquelas linhas de currículo que, no mundo dos carros de coleção, poderia ser um problema sério. Procedência de competição é um dos principais motores de valor: um carro que venceu Le Mans vale múltiplos de um carro idêntico que nunca largou. A regra não escrita do mercado é que história de vitória vale mais que história de participação, que por sua vez vale mais que história de tentativa.
No caso dos F1 GTR, porém, a raridade absoluta compensa. São 28 unidades para um mercado global de colecionadores com bolsos que não se esgotam. Quando a oferta é essa e o modelo tem o status que o F1 tem, até o exemplar que ficou de fora da largada vira objeto de disputa.
Depois da vida de competição, o 10R foi convertido para uso nas ruas — prática comum com carros de pista cuja carreira esportiva terminou cedo. A conversão tornou o carro utilizável em via pública, mas o interior manteve especificação de corrida. Ou seja: você pode dirigir na estrada, mas não espere porta-copos.
Duas batidas, uma delas com o dono no volante
Aqui está a parte que separa este carro da maioria dos seus 27 irmãos.
O 10R foi danificado em 2009, com um jornalista ao volante. E foi danificado novamente em 2017, num evento em Goodwood, com o próprio Nick Mason dirigindo.
Existem duas maneiras de ler isso. A primeira é a leitura do investidor: um carro batido duas vezes tem histórico comprometido, e histórico comprometido derruba valor. A segunda é a leitura do entusiasta: um carro batido duas vezes é um carro que foi usado como foi projetado para ser usado, por um proprietário que preferiu correr o risco a estacionar a peça num museu particular.
O mercado de colecionáveis costuma pender para a primeira leitura. Mas Goodwood tem uma peculiaridade: é o evento onde carros históricos absurdamente valiosos são pilotados de verdade, com frequência por pessoas que não são pilotos profissionais, e onde acidentes acontecem justamente porque as máquinas estão sendo exercitadas. Bater em Goodwood não é vergonha — é, em certo sentido, uma credencial.
Quem consertou, e por que isso vale tanto quanto o conserto
A restauração ficou a cargo da Lanzante — e essa informação, para quem conhece o assunto, vale tanto quanto qualquer outro dado da ficha.
A Lanzante é a empresa britânica especializada em McLaren F1 que, em 1995, preparou o carro que venceu as 24 Horas de Le Mans na estreia do modelo. Não é uma oficina genérica de restauração de clássicos. É a casa que tem histórico direto com o modelo, conhecimento acumulado de décadas e acesso ao ferramental correto.
E é aqui que a história do 10R deixa de ser sobre um baterista rico e passa a ser sobre algo que interessa a qualquer proprietário de qualquer carro, de qualquer valor.
Um F1 GTR tem monocoque de fibra de carbono. Reparar estrutura de fibra de carbono não é funilaria no sentido tradicional — não existe martelo e ventosa que puxem amassado de compósito. A fibra não deforma como o aço; ela trinca, delamina, perde integridade de forma que nem sempre é visível na superfície. Diagnosticar dano em compósito exige inspeção específica, e reparar exige laminação com cura controlada, geometria correta e conhecimento de como as cargas atravessam a peça.
Feito errado, o resultado é um carro que parece perfeito e cuja estrutura não responde como deveria numa segunda batida. Feito certo, por quem tem histórico com o modelo, o resultado é um carro que vai a leilão por US$ 35 milhões com dois acidentes na ficha.
A lição que serve para o carro da sua garagem
Vale trazer a conversa para o chão, porque o princípio é exatamente o mesmo numa escala infinitamente menor.
Carro batido não é sinônimo de carro perdido. O que determina o valor residual de um veículo que sofreu colisão é a qualidade e a documentação do reparo. Um conserto bem executado, com peças corretas, alinhamento de estrutura verificado em bancada e registro do que foi feito preserva valor. Um conserto improvisado, com massa cobrindo o que deveria ter sido substituído, destrói valor e cria risco.
A diferença entre os dois cenários raramente é visível para o comprador leigo. Pintura boa esconde muita coisa. Por isso a inspeção pré-compra em veículo usado deveria ser rotina e não exceção — e por isso o histórico documentado de manutenção e reparo é, no mercado de usados brasileiro, um ativo subvalorizado. O proprietário que guarda nota fiscal de tudo o que fez está, sem saber, aplicando a mesma lógica que sustenta o preço de um McLaren de coleção.
Há também o ponto sobre estrutura moderna. Carros contemporâneos usam aços de alta resistência, alumínio e, cada vez mais, compósitos em pontos específicos. Cada um desses materiais tem procedimento próprio de reparo, temperatura máxima de trabalho e limites de retificação. Soldar aço de altíssima resistência como se fosse chapa comum compromete a zona de deformação programada — a região que deveria absorver energia numa colisão futura. O carro sai da oficina bonito e volta a circular com a segurança degradada de forma invisível.
O que o 10R deve alcançar
A estimativa da RM Sotheby's é de US$ 35 milhões. Leilões de F1 têm histórico de surpreender para cima, e a combinação de raridade extrema, procedência de celebridade, especificação de corrida convertida para rua e restauração pela Lanzante compõe um conjunto de argumentos difícil de replicar.
O comprador provável não vai dirigir o carro. Vai guardá-lo, exibi-lo ocasionalmente e esperar valorização. É o destino previsível de máquinas nessa faixa de valor, e é ligeiramente triste — porque o proprietário anterior, que bateu duas vezes, era exatamente o tipo de dono que esse carro merecia.
Um F1 GTR parado numa garagem climatizada é um investimento. Um F1 GTR com marca de batida em Goodwood é uma história. O mercado paga pelo primeiro, mas é o segundo que vale a pena contar.
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