O pneu de R$ 500 pode virar R$ 675 se a Camex aprovar a nova alíquota
Todo motorista tem aquele momento em que olha o pneu careca, sabe que precisa trocar, e adia mais um mês. Se a proposta que está em análise no Comitê de Alterações Tarifárias da Camex for aprovada, esse adiamento vai ficar mais caro — e o cálculo já foi feito por quem vende.
A proposta quer elevar a alíquota de importação de pneus de passeio de 25% para 35%. Segundo as contas da ABIDIP, associação que representa os importadores e distribuidores, o efeito em cascata é direto no bolso: um pneu que hoje custa R$ 500 passaria a R$ 580 com 16% de alíquota, a R$ 625 com 25% e chegaria a R$ 675 com os 35% propostos.
Multiplique por quatro
Aqui está o detalhe que transforma o número de "aumento chato" em "problema de orçamento": pneu não se troca um. Se troca aos pares, no mínimo, e o correto é o jogo completo.
Um jogo de quatro pneus que hoje sai por R$ 2.000 passaria a R$ 2.700 no cenário de 35%. Setecentos reais de diferença numa despesa que já é das mais adiadas pelo brasileiro — e que, diferentemente de um retrovisor trincado ou de um ar-condicionado que não gela, é literalmente o único ponto de contato do seu carro com o asfalto.
É aí que a política tarifária esbarra na segurança viária. Cada real a mais no pneu é um incentivo a rodar mais um mês com a borracha no limite, a comprar remoldado sem procedência ou a trocar só os dois da frente e deixar os de trás para "depois". Nenhuma dessas três decisões é boa, e todas ficam mais tentadoras conforme o preço sobe.
O nacional não é o refúgio que parece
A reação natural de quem lê sobre imposto de importação é pensar: então compro nacional e pronto. O balcão discorda.
Hoje, o preço de balcão para pneu de passeio aro 14 parte de R$ 299 para os importados e de R$ 349 para os nacionais. Leia de novo: o nacional já é mais caro na entrada de linha. Cinquenta reais por pneu, duzentos reais no jogo.
E existe um efeito que a teoria econômica descreve há muito tempo: quando o produto importado encarece por tarifa, o nacional raramente segura o preço por generosidade. Ele sobe também, porque o teto de mercado subiu e a margem estava ali esperando. O consumidor perde nas duas pontas — o importado fica proibitivo e o nacional acompanha o movimento a uma distância confortável.
O argumento do outro lado
Seria desonesto tratar isso como maldade pura. A indústria nacional de pneus emprega gente, sustenta cadeia de fornecedores e alega concorrência desleal de produto importado com preço agressivo. É um argumento legítimo e velho como a política industrial brasileira.
Os números de matéria-prima ajudam a entender a queda de braço. Dados da Receita Federal mostram que metade das importações chega ao Brasil a cerca de US$ 2,65 por quilo, enquanto o preço médio da borracha natural é de US$ 2,12 por quilo. As importações brasileiras de produtos de borracha vindos da China somaram US$ 1,42 bilhão em 2025 — não é um fluxo marginal, é um mercado de peso.
A pergunta que fica sem resposta fácil é a de sempre nesse tipo de disputa: quanto de proteção é sustentação de emprego e a partir de que ponto vira conta empurrada para o consumidor final que só queria trocar quatro pneus sem parcelar em dez vezes.
O que fazer enquanto a decisão não sai
Primeiro, se o seu pneu já está pedindo troca, essa é uma daquelas raras situações em que antecipar a compra tem lógica econômica concreta e não é só ansiedade de consumidor. Proposta tarifária em análise costuma virar decisão sem aviso prévio ao varejo.
Segundo, calibragem virou item de economia doméstica. Pneu murcho desgasta irregular, come combustível e encurta a vida útil de um produto que está prestes a ficar mais caro. Cinco minutos no posto a cada quinze dias mudam de patamar quando o jogo custa R$ 2.700 — explicamos o procedimento correto no guia de calibragem de pneus.
Terceiro, cuidado com a economia que sai cara. Num cenário de preço em alta, cresce a oferta de produto de origem duvidosa e de remoldado vendido como novo. A diferença entre um e outro está detalhada no guia de pneu novo vs remoldado, e vale a leitura antes de fechar negócio por um preço bom demais.
Pneu é o item em que o brasileiro mais economiza e o único que decide se o carro para ou não para na chuva. Uma alíquota de 35% não muda essa física — só torna mais caro respeitá-la.
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