900 mil Fiat Strada em seis anos: a picape que virou o carro mais vendido do Brasil já tem sucessora marcada — e ela será "irmã" do novo Argo
Existem carros que vendem bem e existem fenômenos estatísticos. A Fiat Strada pertence à segunda categoria. Enquanto o mercado brasileiro discutia elétricos chineses, tarifas de importação e SUVs cupê, a picapinha de Betim fez o que faz todo santo mês desde 2020: liderou. E nesta semana cravou mais um número redondo na parede da fábrica mineira: 900 mil unidades produzidas da segunda geração, lançada há apenas seis anos. Para colocar em perspectiva, é quase uma unidade nova a cada três minutos e meio, ininterruptamente, desde 2020 — incluindo pandemia, crise dos semicondutores e todas as reviravoltas que o setor conheceu no período.
Os 900 mil não são um marco isolado, mas o capítulo mais recente de uma dominação que já virou rotina. A Strada foi o veículo mais vendido do Brasil nos últimos cinco anos consecutivos. Em 2025, emplacou 156.786 unidades e assumiu também o posto de modelo mais vendido da América do Sul inteira. Em 2026, o ritmo segue firme: mais de 80 mil unidades comercializadas só no Brasil entre janeiro e maio. Quando a lista de mais vendidos de junho saiu esta semana, lá estava ela de novo, na primeira posição, olhando o T-Cross e o Polo brigarem pelo segundo lugar como quem assiste a uma disputa pela prata.
"O projeto nasceu com foco total no cliente", resume Frederico Battaglia, head da Fiat e da Abarth para a América do Sul, destacando a "trajetória consistente" da marca. Frase protocolar de executivo, sim — mas com uma vantagem rara: os números a sustentam.
A receita do fenômeno: inventar primeiro, sempre
O segredo da Strada não é mistério para quem acompanha sua ficha corrida. A picape compacta da Fiat construiu a liderança fazendo, repetidamente, uma coisa simples: chegar primeiro. Foi ela que introduziu a cabine estendida no segmento, em 1999, quando picape pequena era sinônimo de cabine apertada para dois. Foi ela que lançou a cabine dupla, em 2009, e a inusitada terceira porta, em 2013 — soluções que transformaram a ferramenta de trabalho em carro de família. Em 2021, veio outro pioneirismo: a primeira picape do segmento com câmbio automático CVT. E em 2023, o motor 1.0 turbo de até 130 cv e 20,4 kgfm de torque, que aposentou de vez a fama de picape fraca.
Essa sequência de primeiros lugares explica por que a Strada conseguiu o que pouca gente achava possível: ser dois carros ao mesmo tempo. De segunda a sexta, é ferramenta — a cabine plus carrega 720 kg e 1.354 litros na caçamba, com quatro ganchos inferiores e seis superiores para amarrar carga, e ainda reboca 400 kg. No fim de semana, a cabine dupla vira o carro da família, com cinco lugares e porte urbano de 4,47 metros. O pedreiro e o empresário rural compram pela caçamba; o motorista de aplicativo e o aposentado, pelo conjunto. Todos aparecem na mesma estatística.
Não por acaso, a concorrência passou a década tentando copiar a fórmula. A VW Saveiro envelheceu esperando sucessora, a Chevrolet Montana cresceu de tamanho para não brigar de frente, a Ram Rampage foi buscar outro bolso. O posto de rival direta segue, na prática, vago.
2028: a Strada vira "irmã" do Argo
Mas nem os fenômenos escapam do calendário. Nos bastidores da Stellantis, a terceira geração da Strada já tem projeto, codinome e data: chama-se internamente XBP e está prevista para 2028. E a mudança será profunda — a picape vai trocar de fundação, migrando para a plataforma CMP, a mesma arquitetura global que sustentará o novo Argo a ser produzido em Betim.
A relação entre os dois, aliás, ficará mais íntima do que nunca. Se hoje Strada e Argo são "primos", a próxima geração os tornará "irmãos": a picape deve herdar do hatch componentes visuais inteiros, como portas, capô e para-lamas dianteiros, mantendo identidade própria apenas em faróis e para-choques exclusivos. Por dentro, o painel será inspirado no do Grande Panda, o modelo global que inaugura a nova linguagem de design da Fiat, adaptado ao gosto local. É a velha e boa engenharia de escala: compartilhar o que o cliente não percebe para baratear o que ele compra.
As dimensões devem se manter praticamente no lugar — cerca de 4,47 m de comprimento, 1,76 m de largura, 1,60 m de altura e generosos 2,75 m de entre-eixos —, sinal de que a Fiat não pretende mexer no tamanho que deu certo. A novidade fica sob o capô: o conjunto principal será o 1.0 Turbo Flex 200 com hibridização leve de 12 volts, entregando 116 cv e os mesmos 20,4 kgfm de torque, associado a câmbio CVT. Para as versões de entrada, sobrevive o velho conhecido 1.3 Firefly com manual de cinco marchas — porque frota e comércio ainda gostam de simplicidade com preço baixo.
Ou seja: a picape mais vendida do Brasil será, também, uma das primeiras picapes eletrificadas populares do país. Discretamente, sem alarde, do jeito que a Strada costuma fazer suas revoluções.
O que 900 mil picapes dizem sobre o Brasil
Há uma leitura sociológica inevitável nesses números. O carro mais vendido de um país diz muito sobre ele. Os Estados Unidos compram a Ford F-150, gigante de estrada larga e gasolina barata. A Europa compra hatches compactos de cidade apertada. E o Brasil, há meia década, compra uma picape pequena, flex, com caçamba de 700 quilos e prestação que cabe no CNPJ do microempreendedor. A Strada lidera porque é o retrato fiel de um país onde o carro precisa, antes de tudo, trabalhar — e onde o mesmo veículo que entrega mercadoria de manhã leva a família à praia no domingo.
A segunda geração chegou aos 900 mil exemplares em seis anos. Se o ritmo atual se mantiver, o milhão sai antes da despedida, transformando-a numa das gerações de maior sucesso da história da indústria brasileira. A sucessora de 2028 herdará a missão com plataforma nova, motor híbrido e cara de Argo — e com a régua mais alta que uma picape compacta já enfrentou por aqui.
Fenômenos estatísticos, afinal, têm um problema que carro nenhum resolve: a comparação eterna com o antecessor. Mas se alguma linha de montagem no Brasil sabe lidar com expectativa, é a de Betim. Ela produz uma campeã a cada três minutos e meio. Há seis anos. Sem parar.
Leia a materia completa na fonte original:
Ver no AutoCidade Editorial