Dirigir com sono pode ser tão perigoso quanto dirigir bêbado — e o corpo nem sempre avisa antes
Ninguém sai de casa achando que vai dirigir bêbado. A sociedade já internalizou, depois de décadas de campanha, que álcool e volante não se misturam. Mas existe um outro estado que deixa o motorista praticamente tão comprometido quanto — e que a maioria de nós trata como pequeno inconveniente, resolvível com um cafezinho e a janela aberta: o sono.
Segundo a Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), dirigir com sono já é a terceira maior causa de acidentes de trânsito no Brasil. E um levantamento mais recente, conduzido pela Denox em parceria com a MedNet, aprofunda o problema de um jeito que deveria incomodar qualquer motorista de estrada: 60% dos acidentes em rodovias brasileiras têm a fadiga do condutor como causa principal.
Não é exagero retórico. É estatística fria dizendo que, na maioria das vezes que um carro sai da pista numa rodovia brasileira, o problema não foi o pneu, nem o freio, nem sequer outro motorista — foi o próprio corpo do condutor desligando, aos poucos ou de repente, sem pedir licença.
O equivalente em álcool que ninguém espera
A especialista em psicologia do trânsito Giovana Varonni traduziu esse risco numa comparação difícil de ignorar. Dezenove horas seguidas acordado produzem uma degradação psicomotora equivalente a uma taxa de 0,05% de álcool no sangue. Vinte e quatro horas sem dormir equivalem a 0,10% — patamar que, no Brasil, já configura crime de trânsito, não apenas infração administrativa.
Pense nisso da próxima vez que decidir "só mais uma hora de estrada" depois de um dia inteiro de trabalho, sem ter bebido uma gota sequer. Legalmente, você estaria sóbrio. Fisiologicamente, seu cérebro pode estar reagindo como o de alguém que bebeu o suficiente para ser preso numa blitz.
Microssono: quatro segundos, noventa metros
A parte mais assustadora da fadiga ao volante não é o cansaço óbvio — é o episódio que o corpo esconde do próprio motorista. Chama-se microssono: um mecanismo de defesa involuntário do cérebro exausto, que dura entre um e cinco segundos, no qual os olhos permanecem abertos, mas a pessoa está, clinicamente, dormindo.
Faça a conta numa rodovia a 80 km/h: um episódio de quatro segundos de microssono equivale a quase 90 metros percorridos sem qualquer controle consciente do veículo. Quase um quarteirão inteiro de estrada, atravessado por um carro pilotado por ninguém.
Existe ainda um fenômeno irmão, menos citado mas igualmente perigoso: a chamada hipnose rodoviária. Estradas monótonas — retas longas, paisagem repetitiva, tráfego baixo — induzem um estado dissociativo em que o motorista continua fazendo movimentos automáticos (segurar o volante, manter a faixa, frear no momento certo) enquanto o engajamento cognitivo se desconecta. O resultado é uma espécie de "cegueira por desatenção": os olhos veem a estrada, mas o cérebro não está processando o que está sendo visto.
Quem mais sofre com isso: o motorista profissional
Se a fadiga já é perigosa para quem dirige eventualmente, ela se torna praticamente estrutural para quem vive na estrada. Cerca de 280 motoristas de caminhão e ônibus são autuados diariamente por descumprir a Lei do Descanso nas rodovias federais brasileiras — isso apesar de a legislação existir justamente para protegê-los.
O problema, em parte, é estrutural: existem apenas 139 pontos de descanso certificados em toda a malha rodoviária federal do Brasil, que soma 75.800 quilômetros. Fazer a divisão é desanimador — são poucos os locais adequados, longe o suficiente uns dos outros para que "só mais um pouquinho até o próximo posto" vire, com frequência perigosa demais, sinônimo de "vou dirigir cansado além do limite seguro".
Não é uma questão de disciplina individual apenas. É uma questão de infraestrutura que não acompanha a legislação — leis que exigem descanso, sem garantir, na prática, lugares suficientes para descansar.
O que realmente funciona (e o que é só ilusão de alívio)
As recomendações mais comuns para "aguentar" um trecho longo de estrada — beliscar algo, tomar café, ajustar o banco, ligar a música, abrir a janela — têm um problema em comum: são paliativas. Ajudam a adiar o sono por alguns minutos, não eliminam o comprometimento cognitivo que já está instalado.
É como comparar com o álcool mais uma vez: tomar um café depois de estar exausto tem mais ou menos o mesmo efeito prático de tomar um café depois de estar bêbado. Você se sente um pouco mais desperto. Seus reflexos, seu tempo de reação e sua capacidade de julgamento continuam comprometidos por baixo da sensação de alerta artificial.
A única solução que realmente resolve o problema chamado sono é, de forma pouco surpreendente, dormir. Parar o carro, num local seguro, e descansar de verdade — não cochilar cinco minutos no acostamento, mas dar ao corpo o tempo que ele está pedindo.
Por que essa conversa importa tanto quanto a de embriaguez
O Brasil levou décadas para naturalizar a ideia de que "vou dirigir, então não vou beber". A campanha funcionou, ainda que de forma incompleta, porque o risco do álcool é visível, mensurável com bafômetro, associado à lei desde cedo na cabeça de qualquer motorista.
A fadiga não tem bafômetro. Não existe um aparelho que a polícia rodoviária aponta para o motorista e diz "você está no limite do sono permitido". O comprometimento é real, comparável em gravidade, mas invisível — o que talvez explique por que ele segue sendo tratado como fraqueza pessoal, e não como o risco de saúde pública que os números mostram que ele é.
Talvez a mudança de cultura precise começar exatamente aí: tratar "estou cansado demais para dirigir" com a mesma seriedade — e a mesma ausência de vergonha em admitir — que já tratamos "bebi demais para dirigir". A diferença entre os dois estados, no fim das contas, pode ser menor do que qualquer motorista brasileiro gostaria de admitir.
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