1.604 cv e 0 a 100 em 1,96 segundo: a BYD subiu a colina de Goodwood para assustar a Ferrari
O Festival de Velocidade de Goodwood é o lugar onde a aristocracia automotiva vai se exibir. Na propriedade do Duque de Richmond, no interior da Inglaterra, Ferraris históricas sobem a colina ao lado de protótipos de Le Mans, e o público — parte dele de chapéu Panamá — aplaude com a polidez de quem frequenta Wimbledon. Foi exatamente nesse cenário, o mais tradicional que o mundo do automóvel tem a oferecer, que a BYD escolheu apresentar sua declaração de guerra ao clube dos supercarros.
O Denza Z Racing não veio pedindo licença. Três motores elétricos — um na frente, com 680 cv, e dois atrás, somando 1.014 cv — entregam 1.604 cv combinados. A versão Racing acelera de 0 a 100 km/h em 1,96 segundo. Não é erro de digitação: um segundo e noventa e seis centésimos, território em que a física começa a reclamar e o pescoço do motorista, também. A velocidade máxima é de 350 km/h.
Para completar a encenação, a marca levou Jenson Button, campeão mundial de Fórmula 1 em 2009, para dar credibilidade esportiva ao evento. Se a mensagem ainda não estava clara, ficou: a BYD não quer mais ser conhecida como a marca do Dolphin Mini. Ela quer a parede onde ficam pendurados os pôsteres.
Os números da audácia
O pacote técnico do Z Racing é uma aula de força bruta com sofisticação. A bateria de 76 kWh alimenta os três motores e garante 380 km de autonomia — modesta para os padrões de sedãs elétricos, generosa para um carro cuja vocação é transformar pneu em fumaça. O carregamento ultrarrápido em corrente contínua promete recargas em minutos, herança direta da plataforma de 1.000 volts que a BYD vem espalhando por seus modelos de topo.
O peso, cerca de 2.200 kg, entrega a natureza do bicho: é um supercarro elétrico, e baterias pesam. A comparação com os rivais térmicos é inevitável e curiosa — uma Ferrari SF90 pesa uns 600 kg a menos, mas também entrega 604 cv a menos. No arrancada, o chinês simplesmente não dá chance: 1,96 segundo até os 100 km/h é número de carro de arrancada profissional, não de veículo com banco 2+2, ar-condicionado e garantia de fábrica.
A família será composta por três variantes: o cupê (que faz 0 a 100 em 2,2 segundos, o "lento" da casa), um conversível de teto rígido e a versão extrema Racing. Suspensão adaptativa e aerodinâmica ativa completam o conjunto — porque em 350 km/h, apoio aerodinâmico deixa de ser luxo e vira apólice de seguro.
Por que Goodwood, por que agora
A escolha do palco não foi acaso. Goodwood é o território simbólico de Aston Martin, McLaren, Bentley — as marcas que definiram o que significa "carro dos sonhos" para gerações de europeus. Ao estacionar ali um superesportivo de 1.604 cv, a BYD fez o movimento clássico do novo-rico que compra a mansão ao lado do clube que o recusou: não pediu para entrar, mudou a vizinhança.
Há também uma lógica industrial fria por trás do espetáculo. A BYD já venceu a guerra do volume — vende mais elétricos que qualquer outra fabricante do planeta. O que lhe falta é o que os executivos chamam de "brand equity" e o resto de nós chama de desejo. Ninguém sonha com o carro mais vendido; sonha-se com o carro impossível. A Denza, marca premium do grupo, existe para fabricar exatamente esse tipo de sonho — e um halo de 1.604 cv ilumina de tabela cada Dolphin e cada Song Pro nas vitrines.
É a mesma cartilha que a Toyota seguiu com a Lexus nos anos 1990 e a Hyundai com a Genesis duas décadas depois. A diferença é a velocidade: as japonesas e coreanas levaram gerações para atacar o topo da pirâmide. A BYD está tentando fazer isso em meia década, pulando etapas com a pressa de quem sabe que janelas históricas não ficam abertas para sempre.
O Brasil na rota
A parte que nos interessa: o Z chega ao Brasil ainda em 2026, inicialmente na configuração cupê, com as demais versões na sequência. O preço estimado passa de R$ 1,5 milhão — cifra que o coloca na arena de Porsche 911 Turbo, McLaren Artura e afins. Será, com folga, o carro mais caro e mais potente que a BYD já vendeu por aqui.
Se vai vender muito? Certamente não — e não precisa. Supercarro não é produto, é propaganda que se dirige. Cada Z Racing estacionado na porta de um restaurante nos Jardins vai trabalhar de embaixador, sussurrando para o mercado que a marca chinesa que vende sedã para motorista de aplicativo também constrói máquinas de 350 km/h reverenciadas na Inglaterra.
Resta saber como reage o velho mundo. Por décadas, a resposta da Europa às ameaças orientais foi um dar de ombros: japoneses faziam carros confiáveis, coreanos faziam carros baratos, mas o desejo — ah, o desejo — era monopólio de Maranello, Stuttgart e Woking. O Denza Z Racing sobe a colina de Goodwood justamente para disputar esse monopólio. E desta vez, quando o público de chapéu Panamá aplaudiu, não dava para saber se era por educação ou por espanto.
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