Pela primeira vez em 106 anos, a Bentley pinta um carro em degradê — e o resultado atravessa a carroceria de um lado ao outro
Há 106 anos a Bentley pinta carros de um jeito que o mundo inteiro copiou: cores sólidas, profundas, aplicadas com um rigor britânico que transforma verniz em espelho. Bicolores, no máximo. Tricolores, em ocasiões especiais. Mas nunca, em mais de um século de história, a marca de Crewe havia feito o que acaba de apresentar no cupê Supersports — uma pintura em degradê que atravessa a carroceria inteira, mudando de tom conforme você caminha de um lado ao outro do carro. É a primeira vez que a Bentley aplica um acabamento gradiente na lataria de um de seus modelos de produção. E o efeito é hipnótico.
Esqueça o degradê vertical que a gente conhece de camiseta e pôr do sol. O truque da divisão Mulliner, o braço de personalização artesanal da Bentley, é lateral. A cor nasce em um tom no lado do motorista e migra, suavemente, para outro tom completamente diferente no lado do passageiro, percorrendo toda a extensão do veículo. Quem observa o carro passar vê a lataria literalmente trocar de identidade cromática ao longo do capô, das portas e da traseira. Não é uma faixa, não é um adesivo — é tinta de verdade, transicionando por baixo do verniz, obra de uma mão humana que sabe exatamente onde uma cor termina e a outra começa.
Três temas, três narrativas em tinta
A Bentley não lançou apenas um esquema de cores, mas três "temas" completos, cada um com sua própria personalidade, combinando exterior degradê e interior coordenado. O primeiro, e mais teatral, é o Dragon. Por fora, um vermelho Dragon Red que se dissolve gradualmente em um preto Crystal Black — a estética mais inspirada no automobilismo do trio, agressiva e chamativa. Por dentro, couro nos tons Hotspur e Beluga, mantendo o contraste dramático do exterior.
O segundo tema atende pelo nome de Electric e aposta na sutileza. O exterior parte de um azul Electric Blue que se desvanece em um Dark Sapphire mais escuro, num gradiente mais discreto e elegante do que o do Dragon. O interior explode em um vibrante Klein Blue com detalhes em Imperial Blue — uma paleta que homenageia o azul-ultramar consagrado pelo artista Yves Klein. É o tema para quem quer o virtuosismo técnico do degradê sem o grito visual.
O terceiro, chamado Brodgar, é o contemporâneo do grupo. Vai de um Pale Brodgar claro a um Brodgar mais fechado, numa transição monocromática sofisticada, acompanhado internamente por tons de couro Camel e Beluga. É a escolha de quem prefere que o degradê seja percebido de perto, num jogo de tons da mesma família, em vez de um contraste berrante. Três temas, três públicos, uma mesma proeza de pintura.
O interior que conversa com a lataria
O capricho não para na porta. A cabine de dois lugares do Supersports foi desenhada para dialogar com o degradê externo, seguindo a mesma lógica bicolor: o lado do motorista recebe os tons mais claros, e o lado do passageiro, os mais escuros — como se a transição de cor da lataria continuasse para dentro do habitáculo. Tudo revestido em couro integral nas portas e nos bancos, com um padrão de perfuração exclusivo, costuras em contraste nos painéis e nos encostos de cabeça, e um volante de três raios aquecido forrado no couro coordenado. É o tipo de acabamento em que cada detalhe foi decidido por uma pessoa, não por uma linha de montagem.
Esse é, afinal, o negócio da Mulliner: transformar um carro de produção em peça única. A divisão existe justamente para levar a personalização a um patamar que a linha padrão não alcança, e a pintura degradê é a mais nova demonstração de até onde o artesanato de fábrica pode ir quando o preço não é o problema. O Design Theme by Mulliner se posiciona um degrau acima das especificações Level One e Level Two, que já estavam disponíveis desde o lançamento do Supersports, em 2025.
Um esportista de 666 cv vestido de obra de arte
Por baixo de toda essa camada estética mora um carro de verdade, e dos brutos. O Bentley Supersports carrega um motor V8 biturbo de 4 litros que entrega 666 cavalos de potência e 81 kgf·m de torque, associado a um câmbio automático de dupla embreagem ZF de oito marchas. Os números de desempenho fazem jus ao nome: 0 a 100 km/h em 3,7 segundos e velocidade máxima de 320 km/h. As rodas de 22 polegadas em preto brilhante calçam pneus Pirelli Trofeo RS, os mesmos de carros de pista — sinal de que, apesar do luxo, a Bentley não esqueceu que "Supersports" é um sobrenome que precisa ser honrado no asfalto.
A estreia mundial do Design Theme by Mulliner aconteceu no Festival de Velocidade de Goodwood de 2026, entre 9 e 12 de julho — o palco tradicional onde a nobreza automotiva britânica exibe suas criações mais exclusivas na icônica subida de montanha. A Bentley não revelou preços, o que, nesse patamar, é quase uma formalidade: quem pergunta o valor de um Supersports pintado à mão em degradê pela Mulliner provavelmente não é o público-alvo. O que importa aqui não é a etiqueta, e sim o precedente. Depois de 106 anos fiel à cor sólida, a Bentley descobriu que a lataria também pode ser uma tela em transição. E, uma vez que a tinta aprende a mudar de cor no meio do caminho, é difícil imaginar que ela volte a ficar parada num tom só.
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