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19 mil motoristas foram ouvidos e escolheram: banco quentinho vence inteligência artificial

19 mil motoristas foram ouvidos e escolheram: banco quentinho vence inteligência artificial

Imagine a cena numa sala de reunião de montadora. Uma equipe passou dois anos e alguns milhões desenvolvendo um sistema de reconhecimento de animais na estrada por visão noturna, integrado a um assistente que aprende o padrão de condução do motorista. É o tipo de recurso que rende manchete, vídeo de lançamento com trilha épica e uma frase inteira no comunicado à imprensa sobre "redefinir a experiência automotiva".

Do outro lado da mesa, a consultoria AutoPacific apresenta o resultado de uma pesquisa com 19 mil motoristas habilitados que pretendem trocar de carro nos próximos três anos. No topo da lista dos itens mais desejados, com 47% de menções, está uma resistência elétrica costurada dentro do estofamento do banco. Tecnologia inventada nos anos 1960.

Alguém pigarreia. A reunião continua.

O ranking que deveria constranger o departamento de inovação

Os números merecem ser lidos com atenção. A AutoPacific levantou os 15 equipamentos mais valorizados por essa amostra de compradores em potencial, e o pódio ficou assim: bancos aquecidos em primeiro, com 47%; sensores de estacionamento dianteiros e traseiros em segundo, com 45%; e frenagem automática de emergência em marcha a ré em terceiro.

Note o que os três têm em comum. Nenhum deles é novo. Nenhum deles é sofisticado. Todos os três resolvem um incômodo que o motorista sente na pele, literalmente no caso do primeiro, e imediatamente nos outros dois.

Abaixo do pódio aparecem itens de reputação bem mais glamourosa: tração integral, controle de cruzeiro adaptativo, carregamento sem fio de celular, partida remota, visão noturna e identificação de animais na pista. Todos são recursos que consomem orçamento de desenvolvimento consideravelmente maior que uma manta térmica. Todos ficaram atrás de um banco que esquenta.

O dado mais revelador, no entanto, não é a posição — é a trajetória. Na edição anterior da mesma pesquisa, bancos aquecidos sequer figuravam entre os 15 itens mais valorizados. O salto de fora da lista para o primeiro lugar em um único ciclo é o tipo de movimento que estatísticos costumam olhar com desconfiança e departamentos de produto costumam ignorar por conveniência.

Por que o simples ganha: a economia do benefício percebido

A explicação que a própria pesquisa sugere é elegante na sua obviedade: recursos simples podem superar soluções sofisticadas quando entregam benefícios percebidos imediatamente.

Repare na expressão "benefício percebido". Um sistema de frenagem automática de emergência frontal é, sem sombra de dúvida, muito mais valioso para a sobrevivência do motorista do que um banco morno. A diferença é que o motorista percebe o banco morno cinco segundos depois de apertar o botão, todos os dias de inverno, durante os dez anos que ficar com o carro. Já a frenagem automática, se tudo der certo, ele nunca vai perceber — porque o benefício dela é a ausência de um acidente que não aconteceu.

Existe uma assimetria psicológica brutal aí. O ser humano é péssimo em atribuir valor a eventos evitados e excelente em atribuir valor a sensações repetidas. É a mesma razão pela qual as pessoas trocam de plano de celular por causa de 5 GB a mais e não trocam de seguro de vida por causa de cobertura melhor.

Some a isso o fator novidade tecnológica cansada. Depois de uma década de carros vendidos com assistentes que bipam, alertam, corrigem e ocasionalmente erram, uma fatia relevante dos motoristas desenvolveu ceticismo em relação a promessas de software. Um banco aquecido não precisa de atualização over-the-air, não pede permissão de acesso a dados e não desativa sozinho quando o sensor está sujo. Ele esquenta. É tudo o que ele faz e ele faz sempre.

E no Brasil, onde faz calor?

Aqui vale um esclarecimento antes que meia dúzia de leitores do Nordeste feche a página em revolta. A AutoPacific é uma consultoria americana, e a amostra de 19 mil motoristas reflete um mercado onde inverno significa outra coisa. Em Michigan, Minnesota ou Colorado, banco aquecido não é luxo — é a diferença entre entrar no carro e sofrer.

Mas seria preguiçoso descartar o dado como irrelevante para o Brasil por causa do clima. O que a pesquisa mede não é preferência por calor. É preferência por conforto imediato e tangível sobre tecnologia abstrata — e essa preferência não tem nada de regional.

Traduzido para o mercado brasileiro, o equivalente funcional do banco aquecido é bastante identificável: ar-condicionado que gela rápido, bancos ventilados, vidros com boa isolação térmica, película de qualidade, porta-copos que seguram copo de verdade, tomada USB-C que carrega em velocidade decente, e — o campeão nacional absoluto — porta-malas que caiba o carrinho de bebê sem exigir engenharia de origami.

Curiosamente, bancos ventilados vêm ganhando espaço acelerado nas versões topo de linha vendidas no Brasil justamente pela mesma lógica: é um item que o comprador experimenta no test-drive de dez minutos e não esquece mais. Nenhuma central multimídia com assistente de voz consegue produzir esse efeito em dez minutos.

O que as montadoras deveriam fazer com esse dado

A leitura equivocada dessa pesquisa seria concluir que tecnologia avançada não vende e que o caminho é encher o carro de conforto e esquecer os assistentes. Não é isso. Frenagem automática de emergência salva vidas independentemente de o comprador valorizá-la, e existe uma boa razão para que ela venha se tornando obrigatória por regulamentação em vários mercados — precisamente porque o mercado, sozinho, não a priorizaria.

A leitura correta é outra e é mais desconfortável para a indústria: existe um descompasso entre o que o setor investe e o que o cliente valoriza, e esse descompasso está sendo pago pelo cliente na forma de preço final.

Quando um carro chega ao showroom com seis sistemas de assistência que o comprador não pediu, não entende e desativa na primeira semana porque bipam demais, mas sem banco ventilado e com sensor de estacionamento apenas traseiro, alguém errou na alocação de recursos. E o erro não é do comprador.

Há também uma oportunidade comercial evidente para quem estiver prestando atenção. Itens de conforto de baixa complexidade têm margem excelente, instalação simples, praticamente nenhum risco de recall por software e um efeito desproporcional sobre a percepção de valor. É a definição de fruta madura pendurada baixo — e ainda assim boa parte da indústria prefere a escada.

O botãozinho e a moral da história

A conclusão dessa pesquisa cabe numa frase que qualquer vendedor de concessionária já sabia sem precisar de 19 mil entrevistas: as pessoas compram o que elas conseguem sentir.

Toda a indústria automotiva contemporânea está organizada em torno de uma aposta oposta — a de que o diferencial competitivo do carro se mudou definitivamente para o software, para a conectividade e para os níveis crescentes de automação. É possível que essa aposta esteja certa no longo prazo. Provavelmente está.

Mas por enquanto, num levantamento com 19 mil pessoas que efetivamente vão colocar dinheiro na mesa nos próximos três anos, o item mais desejado do automóvel moderno é uma resistência elétrica dentro do estofamento, acionada por um botão que faz uma única coisa e faz bem. Há uma certa justiça poética nisso — e provavelmente uma lição que vai ser reaprendida do zero na próxima geração de carros.

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